Fiquei muito tempo pensando se escrevia ou não sobre o terror que passei ontem. Algumas coisas me tiravam a vontade e a coragem: o medo, a preguiça, a falta de vontade de reviver aquilo tudo, a ideia de que o que eu passei não foi um milésimo do que amigos que estavam no centro passaram. Mas agora é uma sexta-feira, dez da noite, e meu corpo dói demais. Estou gripada e com dores musculares dos saltos ornamentais que dei ontem fugindo de balas de borracha. Então li o relato dos meninos da Max Reebo e vi que eles estavam bem pertinho de mim. Depois li o do Eduardo Roberto, meu ex-colega de MTV, no site da Vice. Em ambos, um fato muito peculiar me chamou atenção. Algo que eu tinha reparado, mas pensei que poderia ser coisa da minha cabeça e mania de perseguição. Vamos ver se vocês percebem o que é.

Estava gripada e completamente entupida, com alguma febre e vim mais cedo pra casa. Não consegui ficar. Ao ver, ao vivo – a revolução será televisionada – os manifestantes começando a chegar na Praça da República, precisei me mexer. Encontrei o Chicó (meu namorado, pra quem não sabe) e alguns amigos na catraca do metrô Ana Rosa às 20h. Decidimos que iríamos para a estação Consolação e de lá tentariamos encontrar os manifestantes descendo a Augusta ou a rua da Consolação.
Ao chegar na Avenida Paulista, o clima era de tensão no ar: não passavam carros, a rua estava bloqueada e o trânsito tinha sido desviado para a Alameda Santos. Ainda não havia motivo pois os manifestantes nunca conseguiram chegar lá. Pelo twitter, no caminho, acompanhei a emboscada ridícula da tropa de choque ainda na Maria Antônia, que fez com que vários grupos se dispersassem. Caos. Um amigo meu já estava no hospital – levou uma bala de borracha na cara, a namorada levou uma dedada na vagina de um policial que a revistou. A menina está em estado de choque. Muita gente estava machucada. Essa história vocês já leram.
A PM estava ali, pacificamente, enquanto ouvíamos o barulho de tiros e bombas numa distância que devia ser algumas quadras mais pra baixo. Era por volta de 20h. Tentávamos encontrar outros amigos que estavam subindo com a manifestação antes da palhaçada toda. Decidimos descer a Rua Frei Caneca, que tem um bar logo na primeira quadra. Nosso grupo devia ter umas dez pessoas, mas aquela era a última vez que estávamos juntos. Do meu lado, reparei dois homens com cabeça raspada. Altos. Razoavelmente fortes. Olharam bem pra minha cara e pra do meu namorado, que não percebeu nada – com certeza só vai se tocar disso quando ler esse texto.
Começamos a descer. A tropa de choque estava na quadra de baixo. Voltamos correndo. Dei de cara com outro grupo do Choque marchando em minha direção. Gritavam como se fosse Esparta. Nunca senti tanto medo na minha vida. Saí correndo, passando pela frente de um bar (não sei porque fui pela calçada) e lá estavam os brutamontes. O bar tinha três mesas altas, cheias de garrafas de cervejas. Antes de eu e o Chicó passarmos correndo, eles – que teoricamente estavam no ‘nosso time’ – JOGARAM AS MESAS NA NOSSA DIREÇÃO. Pulei uma altura que não sabia que era capaz. Entrei na primeira à esquerda, gritando pro meu namorado vir junto, de mão dada com uma menina que pensei ser do meu grupo mas era apenas mais uma garota tão assustada quanto eu. Corri os olhos procurando um lugar pra me abrigar, tudo fechado. Ao chegar na esquina com a Augusta, outra tropa de choque. Não teve jeito.
Começou. Eu vi. O policial do choque estava a dois metros de mim. Olhou pra mim e riu. Foram os dois segundos mais longos que já vivi. Ele riu. E jogou uma bomba de efeito moral na minha direção. Virei e comecei a correr, sem ar, por causa da gripe. Uma lata de gás lacrimogêneo atingiu meus pés, chiando. Não conseguia respirar. Meu peito queimou. Tentava correr tão rápido quanto meu namorado e não conseguia. Eu queria chorar, gritar, sentar no chão, sei lá. Meu joelho começou a doer demais, meu cérebro falou pra ele que não tinha como parar.
Corremos pra frente do Conjunto Nacional. Ali, algumas pessoas estavam nos pontos de ônibus com esperança de que ainda pudessem pegar a condução pra voltar pra casa – nada tinham a ver com o protesto. Manifestantes sentavam no ponto pra descansar, assim como eu fiz. Outras pessoas estavam por trás das portas de ferro baixadas do Conjunto Nacional, se protegendo. Falei pra uma moça desistir do ônibus e ir a pé até a Al. Santos, ou andar até outra estação de metrô. Ela disse que não jogariam nada neles ali que não estavam na manifestação. No calor do momento, discuti com o meu namorado, que queria tentar descer de novo e eu não queria. Não tinha como, não por ali, teríamos que tentar pela Peixoto Gomide. Ele começou a ir em direção à esquina com a Augusta. Uma menina do meu lado passou e gritou:
- Polícia fascista!
Antes de terminar a ultima sílaba da segunda palavra, as bombas começaram a cair. Muita gente correndo. Latas e mais latas de gás lacrimogêneo chiando pelos meus pés. Uma bala de borracha passou a um centímetro da cara do Chicó, fez um buraco na parede e quase rebateu em mim. Um cara caiu e começou a ser pisoteado pelas pessoas desesperadas que corriam da polícia. Parei pra ajudar, carreguei o cara com uma força que eu novamente não sabia que tinha e quando olhei pro lado um policial da Choque estava com a arma apontada pra minha cabeça.

Foi tipo isso. (Foto: Raphael Tognini/VICE)
Aí nem sei de mais nada. Saí correndo no meio da fumaça e me enfiei numa transversal. Consegui enxergar o Chicó de novo e entramos na Alameda Santos, correndo. Aliviamos o passo pra não chamar atenção e andamos até depois da Al. Casa Branca. Paramos pra comprar agua num bar, achamos que tudo estava mais tranquilo e conseguiríamos chegar em casa (moramos perto da Al. Campinas, mas estávamos do outro lado da Paulista que deveríamos estar). Andamos mais um pouco e fomos acuados por PMs em motocicletas, que tentavam dispersar trios e duplas. Resolvemos que iríamos arriscar e fingir que não tínhamos nada a ver com aquilo, segurei a mão dele e fui andando. Começamos a subir a Pamplona e teve novo ataque do choque. Nos enfiamos numa farmácia, eu discuti com um velho reacionário que queria a ditadura de volta (tomara que tenha tomado borrachada na osteoporose) e precisamos sair de lá. Subimos a Campinas e chegamos na Paulista.
A cavalaria vinha na nossa direção. Corri. Uma bomba estourou atrás da gente. Descemos a campinas com motos da PM ao nosso lado, eu estava quase cega pelo medo e pela falta de ar. Quando eu vi, estava em casa.
O que eu passei não foi um décimo do que outras pessoas passaram. O que eu vi vai me marcar pra sempre. Não vou entrar nos méritos políticos das questão aqui, mas o blog sempre foi um lugar onde eu conto coisas que acontecem comigo e esse dia tão importante pra minha história (e pra do país também) não poderia deixar de ficar registrado. Eu senti medo, revolta, nojo. Eu vi aqueles que deveriam me defender, me atacando. Eu vi meu direito de ir e vir, de protestar, de falar o que quiser completamente ameaçado.
Nunca achei que fosse viver pra ver algo do tipo. Sempre pensei que esse tipo de coisa tinha ficado pra trás. Já participei de protestos antes, com direito a borrachada e gás, mas eram duzentas ou trezentas pessoas e os ataques dos policiais eram focados nos manifestantes – o que continua sendo horrível, mas não envolve velhinha no ponto de ônibus.
Sei que tenho leitoras no Brasil inteiro, e algumas no exterior. Quero que vocês saibam que eu vivi isso e que é real. Que essa merda toda está acontecendo. Hoje não consegui falar de outra coisa. Não participei dos outros manifestos (o primeiro aconteceu no dia do meu aniversário e fui acometida por uma terrível culpa por estar jantando na Lanchonete da Cidade enquanto tudo aquilo acontecia e eu passava de táxi no meio do caos sem nem me tocar do que rolava de verdade). Fiquei o dia inteiro falando disso, entrando em grupos de Facebook e tentando ver como posso ajudar de certa forma. Tenho muitas perguntas que jamais terão resposta. Uma sede de fazer mais se misturou com um terrível medo pelo que aconteceu ontem.
Mas não vão vencer. O medo não vai vencer.