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O que eu vivi no Manifesto do dia 13/6 em São Paulo

Fiquei muito tempo pensando se escrevia ou não sobre o terror que passei ontem. Algumas coisas me tiravam a vontade e a coragem: o medo, a preguiça, a falta de vontade de reviver aquilo tudo, a ideia de que o que eu passei não foi um milésimo do que amigos que estavam no centro passaram. Mas agora é uma sexta-feira, dez da noite, e meu corpo dói demais. Estou gripada e com dores musculares dos saltos ornamentais que dei ontem fugindo de balas de borracha. Então li o relato dos meninos da Max Reebo e vi que eles estavam bem pertinho de mim. Depois li o do Eduardo Roberto, meu ex-colega de MTV, no site da Vice. Em ambos, um fato muito peculiar me chamou atenção. Algo que eu tinha reparado, mas pensei que poderia ser coisa da minha cabeça e mania de perseguição. Vamos ver se vocês percebem o que é.

Estava gripada e completamente entupida, com alguma febre e vim mais cedo pra casa. Não consegui ficar. Ao ver, ao vivo – a revolução será televisionada – os manifestantes começando a chegar na Praça da República, precisei me mexer. Encontrei o Chicó (meu namorado, pra quem não sabe) e alguns amigos na catraca do metrô Ana Rosa às 20h. Decidimos que iríamos para a estação Consolação e de lá tentariamos encontrar os manifestantes descendo a Augusta ou a rua da Consolação.

Ao chegar na Avenida Paulista, o clima era de tensão no ar: não passavam carros, a rua estava bloqueada e o trânsito tinha sido desviado para a Alameda Santos. Ainda não havia motivo pois os manifestantes nunca conseguiram chegar lá. Pelo twitter, no caminho, acompanhei a emboscada ridícula da tropa de choque ainda na Maria Antônia, que fez com que vários grupos se dispersassem. Caos. Um amigo meu já estava no hospital – levou uma bala de borracha na cara, a namorada levou uma dedada na vagina de um policial que a revistou. A menina está em estado de choque. Muita gente estava machucada. Essa história vocês já leram.

A PM estava ali, pacificamente, enquanto ouvíamos o barulho de tiros e bombas numa distância que devia ser algumas quadras mais pra baixo. Era por volta de 20h. Tentávamos encontrar outros amigos que estavam subindo com a manifestação antes da palhaçada toda. Decidimos descer a Rua Frei Caneca, que tem um bar logo na primeira quadra. Nosso grupo devia ter umas dez pessoas, mas aquela era a última vez que estávamos juntos. Do meu lado, reparei dois homens com cabeça raspada. Altos. Razoavelmente fortes. Olharam bem pra minha cara e pra do meu namorado, que não percebeu nada – com certeza só vai se tocar disso quando ler esse texto.

Começamos a descer. A tropa de choque estava na quadra de baixo. Voltamos correndo. Dei de cara com outro grupo do Choque marchando em minha direção. Gritavam como se fosse Esparta. Nunca senti tanto medo na minha vida. Saí correndo, passando pela frente de um bar (não sei porque fui pela calçada) e lá estavam os brutamontes. O bar tinha três mesas altas, cheias de garrafas de cervejas. Antes de eu e o Chicó passarmos correndo, eles – que teoricamente estavam no ‘nosso time’ – JOGARAM AS MESAS NA NOSSA DIREÇÃO. Pulei uma altura que não sabia que era capaz. Entrei na primeira à esquerda, gritando pro meu namorado vir junto, de mão dada com uma menina que pensei ser do meu grupo mas era apenas mais uma garota tão assustada quanto eu. Corri os olhos procurando um lugar pra me abrigar, tudo fechado. Ao chegar na esquina com a Augusta, outra tropa de choque. Não teve jeito.

Começou. Eu vi. O policial do choque estava a dois metros de mim. Olhou pra mim e riu. Foram os dois segundos mais longos que já vivi. Ele riu. E jogou uma bomba de efeito moral na minha direção. Virei e comecei a correr, sem ar, por causa da gripe. Uma lata de gás lacrimogêneo atingiu meus pés, chiando. Não conseguia respirar. Meu peito queimou. Tentava correr tão rápido quanto meu namorado e não conseguia. Eu queria chorar, gritar, sentar no chão, sei lá. Meu joelho começou a doer demais, meu cérebro falou pra ele que não tinha como parar.

Corremos pra frente do Conjunto Nacional. Ali, algumas pessoas estavam nos pontos de ônibus com esperança de que ainda pudessem pegar a condução pra voltar pra casa – nada tinham a ver com o protesto. Manifestantes sentavam no ponto pra descansar, assim como eu fiz. Outras pessoas estavam por trás das portas de ferro baixadas do Conjunto Nacional, se protegendo. Falei pra uma moça desistir do ônibus e ir a pé até a Al. Santos, ou andar até outra estação de metrô. Ela disse que não jogariam nada neles ali que não estavam na manifestação. No calor do momento, discuti com o meu namorado, que queria tentar descer de novo e eu não queria. Não tinha como, não por ali, teríamos que tentar pela Peixoto Gomide. Ele começou a ir em direção à esquina com a Augusta. Uma menina do meu lado passou e gritou:

– Polícia fascista!

Antes de terminar a ultima sílaba da segunda palavra, as bombas começaram a cair. Muita gente correndo. Latas e mais latas de gás lacrimogêneo chiando pelos meus pés. Uma bala de borracha passou a um centímetro da cara do Chicó, fez um buraco na parede e quase rebateu em mim. Um cara caiu e começou a ser pisoteado pelas pessoas desesperadas que corriam da polícia. Parei pra ajudar, carreguei o cara com uma força que eu novamente não sabia que tinha e quando olhei pro lado um policial da Choque estava com a arma apontada pra minha cabeça.

Foi tipo isso. (Foto: Raphael Tognini/VICE)

Aí nem sei de mais nada. Saí correndo no meio da fumaça e me enfiei numa transversal. Consegui enxergar o Chicó de novo e entramos na Alameda Santos, correndo. Aliviamos o passo pra não chamar atenção e andamos até depois da Al. Casa Branca. Paramos pra comprar agua num bar, achamos que tudo estava mais tranquilo e conseguiríamos chegar em casa (moramos perto da Al. Campinas, mas estávamos do outro lado da Paulista que deveríamos estar). Andamos mais um pouco e fomos acuados por PMs em motocicletas, que tentavam dispersar trios e duplas. Resolvemos que iríamos arriscar e fingir que não tínhamos nada a ver com aquilo, segurei a mão dele e fui andando. Começamos a subir a Pamplona e teve novo ataque do choque. Nos enfiamos numa farmácia, eu discuti com um velho reacionário que queria a ditadura de volta (tomara que tenha tomado borrachada na osteoporose) e precisamos sair de lá. Subimos a Campinas e chegamos na Paulista.

A cavalaria vinha na nossa direção. Corri. Uma bomba estourou atrás da gente. Descemos a campinas com motos da PM ao nosso lado, eu estava quase cega pelo medo e pela falta de ar. Quando eu vi, estava em casa.

O que eu passei não foi um décimo do que outras pessoas passaram. O que eu vi vai me marcar pra sempre. Não vou entrar nos méritos políticos das questão aqui, mas o blog sempre foi um lugar onde eu conto coisas que acontecem comigo e esse dia tão importante pra minha história (e pra do país também) não poderia deixar de ficar registrado. Eu senti medo, revolta, nojo. Eu vi aqueles que deveriam me defender, me atacando. Eu vi meu direito de ir e vir, de protestar, de falar o que quiser completamente ameaçado.

Nunca achei que fosse viver pra ver algo do tipo. Sempre pensei que esse tipo de coisa tinha ficado pra trás. Já participei de protestos antes, com direito a borrachada e gás, mas eram duzentas ou trezentas pessoas e os ataques dos policiais eram focados nos manifestantes – o que continua sendo horrível, mas não envolve velhinha no ponto de ônibus.

Sei que tenho leitoras no Brasil inteiro, e algumas no exterior. Quero que vocês saibam que eu vivi isso e que é real. Que essa merda toda está acontecendo. Hoje não consegui falar de outra coisa. Não participei dos outros manifestos (o primeiro aconteceu no dia do meu aniversário e fui acometida por uma terrível culpa por estar jantando na Lanchonete da Cidade enquanto tudo aquilo acontecia e eu passava de táxi no meio do caos sem nem me tocar do que rolava de verdade). Fiquei o dia inteiro falando disso, entrando em grupos de Facebook e tentando ver como posso ajudar de certa forma. Tenho muitas perguntas que jamais terão resposta. Uma sede de fazer mais se misturou com um terrível medo pelo que aconteceu ontem.

Mas não vão vencer. O medo não vai vencer.

  • Nathália Sartorato

    Eu já li tantos relatos semelhantes com o seu hoje, que só consigo compartilhar todo o medo, raiva e nojo que vocês estão sentindo. Mesmo aqui, no interior do Paraná, bem longe de todo o caos, é impossível ficar ‘alheia’ ao show de truculência dos PMs. E é impossível não sentir vergonha do nosso sistema, que protege bandido e ataca inocentes.

  • Yasmin

    Eu realmente quero viver na pele, quero ver quão escrotos esses malditos são. Desculpe as palavras feias, mas estou extremamente revoltada!!!
    Que a força do povo só se multiplique!

    • Henrique Santana

      Que a força se multiplique, falou bem.

  • Jennifer

    Como uma das suas leitoras no exterior, Dani, eu aprecio que você tenha compartilhado esse relato. Estou lendo tudo que encontro sobre as manifestações e mesmo estando longe queria vivências esse momento importante.

  • She

    Dani, ao ler pareceu estar vivendo um pesadelo…Que triste! Essa truculência é uma amostra do que uma ditadura pode nos trazer. Não é hora de falarmos de partidos nem nada, mas quem está no poder age sempre da mesma forma. Tenho medo de que isso seja uma amostra do que está por vir de pior, tenho medo de passar pelo mesmo que vc, mas ao mesmo tempo não quero ficar parada esperando a banda passar. Chega de corrupção, chega de maquiagem pra estrangeiro ver! Não é por vinte centavos…

  • Juliana Santos

    Dani, fiquei horrorizada com o que vc descreveu. Fiquei imaginando uma menina desprotegida e acuada. Estou com medo de ir na próxima manifestação. Medo de levar tiro de borracha na cara. Mas vou mesmo assim! A hora é agora! Eles querem nos calar com violência, mas não vão conseguir. Chega dessa roubalheira! Segunda-feira eu estarei lá lutando pelos meus direitos e por um país melhor para a minha filha.

  • neia

    Sou de SC mas estou por dentro de tudo que está acontecendo. Tô abismada, sinceramente não tenho nem palavras diante de tudo isso que li aqui nesse post e em outros lugares. Que país é esse? Que porra de país é esse? Queria muito estar ai pra ajudar, tô muito revoltada, com ódio, repulsa!
    Que vergonha Brasil, que vergonha!

  • Dee Vieira

    Tudo isso é revoltante. O abuso de poder da PM sempre foi um
    assunto em pauta em diversas manifestações. Força! Vamos vencer! E esse é o
    primeiro grito de muitos outros que daremos para darmos um basta nesse sistema
    de ladrões de cara lustrada. “Um amigo meu já estava no hospital – levou
    uma bala de borracha na cara, a namorada levou uma dedada na vagina de um
    policial que a revistou. A menina está em estado de choque.” Realmente,
    deprimente ler e saber que isso acontece… Estamos unidos, e isso é o que mais
    importa agora! Vamos vencer!

  • Henrique Santana

    Força e fé.

  • Paula Schröder

    chorei que nem um bebê lendo isso. realmente muito triste, queria poder fazer algo pra ajudar, pelo menos ter estado lá…

  • lufreitas

    haja coragem, Dani!! orgulho de você, sua linda.

  • Thais

    Estou apavorada com o que li, sou uma menina de 16 anos totalmente dependente dos meus pais e nenhum dos meus amigos se interessa com esses tipos de assuntos. Porém tenho uma enorme vontade de ajudar esse protesto !

    • Lucas Rodrigues

      Uma boa maneira de ajudar mesmo estando em casa é divulgando essas barbaridades feitas pela PM, compartilhando depoimentos como este, compartilhando vídeos e principalmente ler a respeito de tudo pra se informar e informar quem estiver perto de ti, pq pra manipular a informação já existem vários meios…

  • Ca

    Em Porto Alegre, foi a mesma coisa. Pelos relatos que venho lendo, me parece que aqui foi levemente menos pior, mas de qualquer modo, foi terrível. Eu sei exatamente o que tu passou e sei que é terrível. Não desejo para ninguém, mas, ao mesmo tempo, desejo que todos se indignem contra a violência, se levantem contra ela, tenham a coragem de não virar as costas para o país nesse momento. Obrigada por compartilhar esse relato. É importantíssimo atingir o maior número de pessoas com as informações não manipuladas pela mídia, que mostram todos os manifestantes como vândalos descontrolados. Não são assim, não todos. Não se pode permitir, calada, que se trate todos como bandidos perigosos, com essa violência desmedida. Obrigada, vocês é muito corajosa, parabéns, de verdade.

  • Jan Ghiraldini

    Força aí.

    Tenho 51 anos e tomei muita borrachada nos anos 80, qdo queríamos Diretas Já. Fomos enganados por quem nós colocamos no poder naquela época. e agora é correr pela rua berrando tudo de novo. triste demais ver q o Brasil parou e agora está dando ré. enquanto não houver educação adequada isso se repetirá de tempos em tempos e nada irá ocorrer se errarmos novamente. mas a pergunta q não quer calar: votar em quem agora? não vejo saída no momento …. triste mesmo.

    PS. Hoje moro em Amsterdam, buscando um pouco de dignidade nesta vida.
    PS2. Ainda pago impostos no Brasil.

  • Pollyana Batista

    Com todos as notícias que se tem das manifestações o que se lê é sobre a ação truculenta da polícia. Como você disse quem deveria estar protegendo, está atacando. Será que os mesmos policiais que estão atirando nos manifestantes gostariam de receber balas etc, quando protestam por salários melhores, hummm?!!

  • Alexandre

    Dani, não te conheço, mas quero te dizer uma coisa. Depois que li o seu emocionante relato, ainda chorando de tanta revolta, quero te dizer que agora me orgulho mais de ser um brasileiro, de saber que existe pessoas como vc, realmente é muito revoltante, mas não podemos parar. Parabéns, parabéns… e melhoras. FORÇA !!!

  • Sarah

    Achei incrível o texto, nem dá pra imaginar o medo que você sentiu, mas é exatamente o que você disse, a gente tem que sentir na pele pra saber qual é a real, eu vi alguns vídeos, e fotos, e também estou chocada, porque é cada barbaridade e a cada texto que leio é uma forma de abuso diferente . Mudei de SP para Fortaleza em Abril, mas estou louca pra ir, pra protestar, o medo vai existir sempre, mas nós temos que ter coragem de lutar por um ideal, e eu vi que só é possível com todos juntos.

  • Michelle

    Estou grávida e não posso participar de nada disso, mas admiro e invejo sua coragem e a de todos os outros que estão no meio disso tudo. Hoje estou entendendo melhor tudo o que está acontecendo e já que não posso sair pra rua, vou ajudar por aqui mesmo! Parabéns menina e força pra continuar apesar do pânico. Eles não vão vencer. Vaia é pouco, traz a presidente pra rua, vem enfrentar o povo Sra Dilma! E qto a PM que vive se manifestando por melhores salários, na próxima greve deles, vamos reagir contra e dispersá-los como estão fazendo agora. Tomar do próprio veneno! afff. falei

  • Vinicius Carvalho

    “Eu senti medo, revolta, nojo. Eu vi aqueles que deveriam me defender, me atacando.” Eu tb senti tudo isso vendo os vídeos no Youtube e os relatos como o seu; a segunda frase é a mais desconcertante: é o verdadeiro absurdo, “noncense” e tudo o mais de adjetivos ruins em relação à opressão policial e uma repressão como dos tempos da Ditadura! Receba a minha solidariedade e apoio !

  • Fabi

    Essa repressão policial já é estilo Ditadura, infelizmente, essa Dilma é uma comunista e o Lula está junto com ela nisso. O incentivo ao desarmamento da população brasileira já é o início para que ela implante a ditadura no nosso Brasil novamente, essa armação policial de destruir suas próprias viaturas para culpar o povo e, além disso, pessoas que trabalham no governo diretamente com a Dilma, estão sendo mandados como infiltrados em meio a esses protestos para incentivar a violência e depois, mais uma vez, colocarem a culpa nos manifestantes. Nunca fui com a cara dessa Dilma desde a 1ª vez que vi o Lula indicando-a na TV como futura presidente do nosso país, tanto é que, fiz parte da porcentagem de que não votaram nela.

    • Julia

      kkkk Que louca. Uma direitista querendo jogar tudo nas costas da Dilma. É claro que vc não votou nela, votou no Serra pra preservar seus privilégios.