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Trote é legal?

Outro dia, enquanto descia pela Avenida Angélica de ônibus quando voltava do trabalho, vi alguns alunos do Mackenzie tomando trote. Os meninos estavam pintados e com farinha no cabelo. Já as meninas, além da tinta e da farinha, tiveram suas roupas cortadas na região dos seios, das coxas, da barriga e da bunda. Uma das meninas estava com um ex-calça que os veteranos devem ter cortado as pernas, a deixando com um micro-short, que puxava o tempo todo pra baixo, claramente incomodada com a situação.

A cena me deixou com um nó na garganta. Eu tenho uma história lixo com trote, e vou contar de forma resumida: em 2005 entrei na faculdade, mas como minha turma era a primeira do curso, os alunos de outro curso deram trote na gente. Eu fui pedir dinheiro no farol, como mandaram. Não estava afim, pois estava muito sol e eu sou muito branca, mas eu queria muito fazer novos amigos… então acabei indo pra não ser a “chata” que não quer participar da brincadeira. eu tinha 18 anos e não manjava muito da vida. Quando a gente tem essa idade e quer se enturmar, se sente mal por dizer não. Então eu fiquei lá, no sol, pedindo dinheiro no farol, e os meus veteranos viram que eu estava ficando vermelha. Eles não fizeram nada pois, de acordo com eles mesmos “Bixo tem é que sofrer”. E eu sofri. Sofri com uma insolação severa, hospital, soro, e uma semana de cama.

Todos os anos a gente vê relatos de abusos que resultam em acidentes graves e até morte. Isso sem contar todos os que não são denunciados, como essas alunas que ficaram seminuas como eu pude ver, e tantas outras que são obrigadas a simular sexo oral em legumes e coisas do tipo Isso não é divertido e nem legal. Nós mulheres já temos que aguentar abuso todos os dias na rua. Entrar na faculdade é muito legal, vamos nos formar profissionais e fazer muitos novos amigos. A primeira semana não tem que ser traumatizante de nenhuma forma. E ninguém tem que aceitar abuso pra ser incluído, não importa seu gênero.

Se você está entrando na faculdade agora e não quer passar por isso, se manifeste e diga não. Vá direto pro bar, faça amigos de outras formas, converse com as pessoas. Se você está passando por um farol, não dê dinheiro pra essa galera. Não incentive a humilhação. Guarde seu dinheiro para uma causa mais importante e gente que realmente precisa, como uma associação que ajude crianças, animais, ou pessoas em situação de risco. Se você é veterano, seja consciente e aprenda a respeitar o espaço do seu calouro. Não é porque você teve um veterano idiota que você precisa ser um também. Don’t be a bully.

Em tempo: quando chegou minha hora de dar trote, levei filtro solar e passei em todo mundo. Ninguém que não quis participar, não participou. Eu mesma não fiz ninguém ir pro pedágio e fui direto pro bar. Fiquei sabendo esses dias que meus bixos fizeram o mesmo nos anos seguintes. Fiquei feliz :)

 

alô, é da casa do mário?

faltam pouco mais de 15  dias para que comecem as aulas na faculdade de novo.

todo começo de semestre é aquele inferno: você vai no primeiro dia de aula pra faculdade e ela está cheia de adolescentes deslumbrados cheios de tinta na cara seguindo um idiota com um apito (e eu posso chamar esse idiota do que eu quiser porque eu já fiz isso também) gritando coisas ridículas e pensando que tem qualquer espécie de poder. não, não vai ter aula pra nenhum semestre, você demorou uma hora pra chegar na puta-que-o-pariu que é seu campus pra nada. os desocupados que não vão trabalhar a tarde vão pro bar “tomar umazinha com os bixos novos” ouvindo babado novo ou um psy aleatório que algum cara fortinho de hotelaria escolheu. medo, muito medo.

em 2005 eu entrei no senac. já havia feito um ano de belas artes e tomado trote, mas “ok, vai ser divertido e é bom pra eu conhecer meus colegas de sala”. além do mais, eu nunca fui a menina popular, então talvez fizesse bem socializar no primeiro dia.
acontece que eu sou branca demais, e meus veteranos não eram bem exatamente meus veteranos. eram veteranos de um outro curso que ODEIAM as pessoas do meu curso.eu, como novata, obviamente não sabia disso.
depois de algumas horas tostando ao sol torrencial que fazia naquela manhã de fevereiro, era mais ou menos umas 14h quando eu sentei na calçada do bar, toda cheia de tinta. uma amiga da minha classe falou “dani, você está muito queimada. os veteranos não te falaram nada?”. não, não tinham falado. eu peguei um ônibus com essa amiga nova (ela mora perto da minha casa) e voltei pra casa, deixando pra lá todo o dinheiro que eu havia arrecadado no pedágio pra cerveja de quem havia sobrevivido.
quando cheguei em casa, minha mãe arregalou os olhos. tomei um banho gelado e desmaiei. mesmo. hospital, soro, noites insones sem poder se mover. e bolhas nos ombros. e MANCHAS pelo corpo. haviam passado tinta nos meus braços e onde havia guache não pegou sol. eu fiquei listrada. também fiquei com a marca da regata. horrível, mas pelo menos ali não ardia.

eu não pude ir na primeira semana na faculdade. fiquei DIAS fazendo compressas de àgua gelada pelo corpo, só de calcinha. colocar qualquer roupa foi um terror por um mês. eu não pude levantar os ombros enquanto as cascas das bolhas dos ombros não caíssem, o que demorou mais ou menos um mês e meio. aquelas manchas nos braços nunca saíram. por um ano foram muito fortes, fiz um tratamento com cremes que amenizou um pouco a situação, mas desaparecer, nunca.

na época eu namorava um menino que tinha passado 40 dias no canadá, e quando ele voltou (5 dias após essa desgraça) eu estava horrível. legal, três meses de namoro e o cara me vê nessa situação. imagina a vergonha? e a vergonha gigantesca de ter que explicar pra todo mundo porque eu era manchada?

superei a vergonha e parei de dar trotes. fui uma ou duas vezes, ainda. na primeira eu passei protetor solar em todos os branquelos, ainda estava traumatizada. isso foi bom, porque os trotes desse ano me renderam bons amigos. na segunda vez eu perdi a paciência nos primeiros 5 minutos de pedágio e sentei na calçada com meus amigos pra rir de um deles que estava muito bêbado.

esse ano eu não vou dar trote, assim como não dei ano passado. cansei. primeiro que não tenho paciência pra socializar com cinquenta pessoas de 17 anos. segundo que esse ritual tribal é demais pra mim. eu sou uma pessoa crescidinha, agora. tenho metas e sonhos que vão muito além de ficar rouca, beber pinga e me sentir superior. eu sou contra qualquer forma de humilhação, e é óbvio que (percebi isso ano passado ao observar de longe os trotes que eram dados) 90% dos bixos não gosta de trote e só está ali pra não ser zoado pelos próximos 4 anos de faculdade.

mas eu confesso que ainda levo o protetos solar na bolsa no primeiro dia. e ainda entro no tópico dos bixos na comunidade do orkut pra ver se algum veterano está com idéias estúpidas que possam machucar alguém. e ainda cuido dessas crianças, minhas crianças, que nunca vão saber meu nome, mas eu os ouço me olhando de longe e falando “aquela é a menina que passou filtro solar na fulaninha no dia do trote”.

esse instinto maternal é uma merda.