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O que eu quero não existe no Tinder.

Quando eu fiquei solteira, o Tinder estava começando a pegar. Eram poucas pessoas que usavam e tudo era meio nebuloso. Pouco tempo depois, me enrolei com uma pessoa e acabei nem instalando o app. Não posso dizer o mesmo dele – desconfio que durante todo o tempo que ficamos juntos, o cara nunca deixou de entrar lá o tempo inteiro. Mas, enfim, não se pode escolher bem sempre…

Depois que esse namorico começou a desabar (e foi nível avalanche tensa de desabamento), resolvi instalar e ver qual é que era. Habilitei para ver perfis de meninos e meninas, de 24 a 33 anos, razoavelmente perto de mim. O que aconteceu a seguir foi um grande freak show. Tive alguns matches, sendo que, destes, poucos realmente falaram comigo ou responderam as mensagens quando eu tive coragem de puxar assunto. Os que responderam foram péssimos na conversa. As meninas quase nunca falavam comigo e os caras já queriam logo sair. Poxa, cara, pera lá! Vamos conversar primeiro e ver se você é alguém interessante que valha a pena eu sair do conforto do meu combo edredom + videogame pra te conhecer. Mas ninguém tem paciência pra isso, não é mesmo?

Duas pessoas que eu conheci no Tinder valeram a pena. Uma foi uma guria que, por motivos diversos, não deu certo. Mas ficamos amigas e guardo ela no coração. O outro foi um gringo, que rolou uma paixãozinha, dois beijos e dez mil quilômetros de distância. Aí o fim da história vocês já conhecem – e não é o do conto de fadas… Enfim, ficamos amigos também. E só.

A real é que eu poderia, sim, ter saído com mais gente que conheci por lá. Mas eu não quero. Porque talvez, no amor, eu seja tipo aquelas senhoras que ainda escrevem farmácia com ‘ph’. Gosto de conhecer ao vivo, de conversar, ver se a pessoa é legal, se me atrai fisicamente, se tem alguma coisa que faz meu coração bater um pouco mais forte – um sorriso, um jeito de falar. Mesmo que não haja interesse nenhum, eu quero decidir se vou ou não ficar a pessoa por motivos muito mais subjetivos do que uma foto e uma descrição de perfil com 200 caracteres. Eu acredito no lance de pele, na respiração no ouvido. Nas borboletas no estômago.

Acho muito superficial a forma como se julga pessoas em alguns segundos. Como você vai saber se aquela é uma pessoa interessante com aquele perfilzinho básico? E se for um cara lindo que curte páginas no Facebook que te agradam mas pessoalmente é um idiota? Como se escolhe alguém dessa forma?

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Percebi que depois que as pessoas começaram a usar apps e sites de relacionamento – digo as pessoas jovens, pois a galera mais velha já usa faz tempo, por outros motivos – ficou muito mais difícil conhecer alguém na vida real. Você vai pra uma festa e ninguém chega em você. Um amigo – homem, heterossexual e solteiro – me disse que a maior parte dos amigos dele prefere conhecer meninas do Tinder ao invés de gastar tempo e esforço chegando em garotas da vida real, correndo o risco de tomar um não.

Acabou toda a emoção de conhecer alguém numa festa, num bar, num café ou na rua. Os amores de metrô vão desaparecer aos poucos enquanto você está do lado de alguém incrível na Linha Verde, mas não tira os olhos do celular. Arrastando o dedo na tela pra direita ou pra esquerda enquanto poderia perguntar pra uma pessoa interessante o que ela está ouvindo no fone de ouvido.

Todo mundo gosta de fazer sexo. Mas eu quero viver alguma coisa interessante, nem que seja só por uma noite. Quero ter uma história pra contar, mesmo que seja curta. A gente não precisa namorar, se apaixonar, viver um grande amor – mas se não tem nada que me faça querer contar pra alguém que conheci uma pessoa legal, não vale a pena o esforço.

Então hoje eu deletei o Tinder. Quando contei isso pra uma amiga que é usuária assídua, ela falou que eu estou jogando minha vida sexual no limbo. Respondi que não me importo.

O que eu quero, sei que não vou encontrar na tela do iPhone.