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Pelo fim do silêncio.

Lembro que eu tinha uma amiga cujo pai batia na mãe. E todos da cidade sabiam, mas ninguém falava nada porque ‘não é de boa educação se meter na vida dos outros’. Enquanto o silêncio permanecia para as coisas importantes mas a língua era bem solta quando se tratava de falar pra vida dos outros, a mãe da minha amiga escondia os hematomas nos braços com echarpes e casacos em pleno verão.

Em outra situação, discutíamos na faculdade sobre uma mulher que foi apedrejada no Irã, condenada por adultério. Veja bem, no Irã uma mulher pode morrer se trair o marido. O marido, no entanto, pode ter quantas mulheres desejar. Um de meus colegas disse que nada poderia ser feito e nós não tínhamos nada a ver com isso pois isso era uma questão cultural do Irã. Que devíamos deixar isso pra lá, mudar de assunto, e não valia a pena ser discutido.

Não importa se acontece na sua vizinhança ou em um país completamente diferente do nosso: esse silêncio me mata aos poucos. Ver as pessoas se calando por medo ou indiferença. Perceber que estamos longe de conscientizar um mundo inteiro da falta de humanidade que é agredir uma mulher.

Dia 25 de novembro foi escolhido como o  Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher em homenagem a Las Mariposas – as Irmãs Mirabal, líderes de um movimento de libertação política na República Dominicana que foram assassinadas brutalmente a mando do ditador Trujillo.

Amanhã, sexta-feira, haverá um flashmob em Porto Alegre pelo fim da violência contra a mulher. Gaúchas, uni-vos! Vocês podem encontrar mais informações aqui.

revolução silenciosa.

quando eu era adolescente eu vim lá do interior pra um protesto na avenida paulista. tinha bastante gente, talvez mais de mil pessoas devidamente preparadas com bandanas cobrindo o rosto pra aliviar os efeitos de bombas de gás lacrimogêneo e algumas camadas de moletom pra que o cacetete da polícia montada doesse menos. mas, por incrível que pareça, era um protesto pacífico – ao menos da nossa parte. não começamos brigas, não vandalizamos nada, apenas carregávamos cartazes e gritávamos nossos direitos. apanhar da polícia que tentava dispersar aquele ‘bando de moleques revoltados’, como lembro de ouvir um policial dizer, parecia um preço bem barato a se pagar perto da alegria que era saber que em algum lugar do mundo nosso grito estava sendo ouvido. talvez nossas reivindicações nunca fossem atendidas, e obviamente não foram, mas com certeza alguém ouviu e aquilo bastava. essa cena aconteceu há dez anos atrás.

Essa sou eu, dez anos atrás.

hoje eu estava pensando nesse dia, e nos tantos dias parecidos de anos atrás, enquanto lia o twitter no ônibus e via várias pessoas da minha timeline reclamando do trânsito e da violência em São Paulo. não consegui decidir se o tom era de revolta ou desabafo. talvez o twitter seja o amigo que nós não temos mais simplesmente por não termos tempo, ou por passarmos tanto tempo apegados a gadgets com internet 3G que esquecemos de olhar para as pessoas. hoje, colocar o nome de uma banda nos trending topics é mais importante do que comprar seus cds (se é que alguém ainda faz isso) ou comprar uma passagem para ir até outra cidade – e porque não outro país? um amigo já foi pros EUA só pra acompanhar o NOFX – só para ver o show de perto. hoje reclamar do trânsito e das enchentes em são paulo pelo twitter é a maior esperança que temos – e o maior passo que damos – de que nosso apelo seja ouvido e alguém faça alguma coisa pra aliviar esse caos.

mas nós sabemos no fundo que não seremos ouvidos. e nossa revolução silenciosa é mais a necessidade de compartilhar a dor e o stress de cada dia, do ombro amigo virtual que nunca vai estar lá. a necessidade de ouvir, no eco de nosso ego, nossa própria voz sendo ignorada – e ver as coisas piorarem a cada dia sem nenhum sinal de melhora.

ah, e falando nisso, me segue no twitter. quem sabe a gente não se reconhece por aí, presos no trânsito dentro de um Terminal Bandeira lotado em plena marginal, pra reclamarmos juntos – e ao vivo – das coisas que vão continuar iguais?