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O que eu vesti: estamos em 1999 novamente

Qualquer menina que cresceu no interior e flertou com o punk rock/hardcore na mesma época que eu sonhava com uma saia dessas. Era difícil de achar até na galeria do rock, plissadinha, estilo colegial, a cara dos anos noventa. Uma amiga era filha de costureira e pediu pra mãe fazer – ficou linda e eu morria de inveja.

Querida, depois de dez anos, chegou a minha vez.

Brincadeiras à parte, o grunge/punk está na moda de novo (sim, porque depois do original dos anos 70, lá por 2000 os símbolos de anarquia também já haviam invadido as fast fashion) e todas as lojas estão cheias de peças xadrez, muito couro, distressed jeans e camisetões. Estou amando muito.

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(Fotos: Dave Armano)

Por favor, só não usem a expressão ‘punk de butique’ que isso é mais cafona que xadrez amarelo, tá?

Todas as peças são da Emme!

revolução silenciosa.

quando eu era adolescente eu vim lá do interior pra um protesto na avenida paulista. tinha bastante gente, talvez mais de mil pessoas devidamente preparadas com bandanas cobrindo o rosto pra aliviar os efeitos de bombas de gás lacrimogêneo e algumas camadas de moletom pra que o cacetete da polícia montada doesse menos. mas, por incrível que pareça, era um protesto pacífico – ao menos da nossa parte. não começamos brigas, não vandalizamos nada, apenas carregávamos cartazes e gritávamos nossos direitos. apanhar da polícia que tentava dispersar aquele ‘bando de moleques revoltados’, como lembro de ouvir um policial dizer, parecia um preço bem barato a se pagar perto da alegria que era saber que em algum lugar do mundo nosso grito estava sendo ouvido. talvez nossas reivindicações nunca fossem atendidas, e obviamente não foram, mas com certeza alguém ouviu e aquilo bastava. essa cena aconteceu há dez anos atrás.

Essa sou eu, dez anos atrás.

hoje eu estava pensando nesse dia, e nos tantos dias parecidos de anos atrás, enquanto lia o twitter no ônibus e via várias pessoas da minha timeline reclamando do trânsito e da violência em São Paulo. não consegui decidir se o tom era de revolta ou desabafo. talvez o twitter seja o amigo que nós não temos mais simplesmente por não termos tempo, ou por passarmos tanto tempo apegados a gadgets com internet 3G que esquecemos de olhar para as pessoas. hoje, colocar o nome de uma banda nos trending topics é mais importante do que comprar seus cds (se é que alguém ainda faz isso) ou comprar uma passagem para ir até outra cidade – e porque não outro país? um amigo já foi pros EUA só pra acompanhar o NOFX – só para ver o show de perto. hoje reclamar do trânsito e das enchentes em são paulo pelo twitter é a maior esperança que temos – e o maior passo que damos – de que nosso apelo seja ouvido e alguém faça alguma coisa pra aliviar esse caos.

mas nós sabemos no fundo que não seremos ouvidos. e nossa revolução silenciosa é mais a necessidade de compartilhar a dor e o stress de cada dia, do ombro amigo virtual que nunca vai estar lá. a necessidade de ouvir, no eco de nosso ego, nossa própria voz sendo ignorada – e ver as coisas piorarem a cada dia sem nenhum sinal de melhora.

ah, e falando nisso, me segue no twitter. quem sabe a gente não se reconhece por aí, presos no trânsito dentro de um Terminal Bandeira lotado em plena marginal, pra reclamarmos juntos – e ao vivo – das coisas que vão continuar iguais?