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16 nov 2010

não escolhi nascer dani – o fiasco do mackenzie homofóbico.

Eu estudei no Senac e criamos, logo no começo do meu curso (lá pelos idos de 2005) a comunidade no Orkut “Senac é mais… diversidade!”, uma brincadeira com o slogan que a faculdade usava na época. Por ter cursos relacionados a artes e comunicação, havia uma comunidade LGBT considerável e ser gay nunca foi uma questão lá. Professores gays, coordenadores gays, e tudo bem. Sua orientação sexual não importava ali naquele ambiente. Não deveria importar em ambiente nenhum.

Pessoas são pessoas e não importa com quem elas gostam de fazer sexo.

Quanto a mim, não escolhi nascer Dani. Nasci assim, fruto da sementinha que papai colocou na barriga da mamãe. Eu amo quem eu amo, e isso não deveria fazer diferença pra ninguém. Nem pros meus amigos, nem pra minha família e muito menos pra minha faculdade.

Pra quem não está entendendo o gancho do post, hoje o Mackenzie se declarou contra a lei que caracteriza homofobia um crime (veja a declaração e leia a matéria aqui no blog da folha). Citando salmos da bíblia a Universidade afirma que o direito de expressão será tolhido se essa lei for aprovada.
Eu, realmente, não sei o que dizer sobre isso. Fico triste pelos alunos da instituição de ensino CABEÇUDA que é o Mackenzie. Fico triste por saber que uma instituição que deveria passar conhecimento aos jovens se preocupa em plantar a semente do preconceito.

Ninguém escolhe ser gay, e eu já falei sobre isso nesse post aqui. É muito mais difícil ser algo que não é aceito por todo mundo. É muito mais difícil saber que a sua forma de amar não é compreendida de todas as formas. Não é minha escolha, não é minha opção, nós NASCEMOS assim e provavelmente vamos morrer assim. Sinto muito, senhor reverendo nicodemus whatevers, mas os seus alunos vão continuar sendo gays não importa o que a tua bíblia tenha dito.

Da mesma forma que ninguém escolhe nascer negro, japonês, gordo. Nós nascemos do jeito que nascemos e qualquer tipo de discriminação deve SIM ser considerado crime. NÃO É LIBERDADE DE EXPRESSÃO ter o direito de ofender ou agredir outro ser humano por qualquer que seja o motivo.

Que vergonha, Mackenzie. Que vergonha.

20 jan 2008

alô, é da casa do mário?

faltam pouco mais de 15  dias para que comecem as aulas na faculdade de novo.

todo começo de semestre é aquele inferno: você vai no primeiro dia de aula pra faculdade e ela está cheia de adolescentes deslumbrados cheios de tinta na cara seguindo um idiota com um apito (e eu posso chamar esse idiota do que eu quiser porque eu já fiz isso também) gritando coisas ridículas e pensando que tem qualquer espécie de poder. não, não vai ter aula pra nenhum semestre, você demorou uma hora pra chegar na puta-que-o-pariu que é seu campus pra nada. os desocupados que não vão trabalhar a tarde vão pro bar “tomar umazinha com os bixos novos” ouvindo babado novo ou um psy aleatório que algum cara fortinho de hotelaria escolheu. medo, muito medo.

em 2005 eu entrei no senac. já havia feito um ano de belas artes e tomado trote, mas “ok, vai ser divertido e é bom pra eu conhecer meus colegas de sala”. além do mais, eu nunca fui a menina popular, então talvez fizesse bem socializar no primeiro dia.
acontece que eu sou branca demais, e meus veteranos não eram bem exatamente meus veteranos. eram veteranos de um outro curso que ODEIAM as pessoas do meu curso.eu, como novata, obviamente não sabia disso.
depois de algumas horas tostando ao sol torrencial que fazia naquela manhã de fevereiro, era mais ou menos umas 14h quando eu sentei na calçada do bar, toda cheia de tinta. uma amiga da minha classe falou “dani, você está muito queimada. os veteranos não te falaram nada?”. não, não tinham falado. eu peguei um ônibus com essa amiga nova (ela mora perto da minha casa) e voltei pra casa, deixando pra lá todo o dinheiro que eu havia arrecadado no pedágio pra cerveja de quem havia sobrevivido.
quando cheguei em casa, minha mãe arregalou os olhos. tomei um banho gelado e desmaiei. mesmo. hospital, soro, noites insones sem poder se mover. e bolhas nos ombros. e MANCHAS pelo corpo. haviam passado tinta nos meus braços e onde havia guache não pegou sol. eu fiquei listrada. também fiquei com a marca da regata. horrível, mas pelo menos ali não ardia.

eu não pude ir na primeira semana na faculdade. fiquei DIAS fazendo compressas de àgua gelada pelo corpo, só de calcinha. colocar qualquer roupa foi um terror por um mês. eu não pude levantar os ombros enquanto as cascas das bolhas dos ombros não caíssem, o que demorou mais ou menos um mês e meio. aquelas manchas nos braços nunca saíram. por um ano foram muito fortes, fiz um tratamento com cremes que amenizou um pouco a situação, mas desaparecer, nunca.

na época eu namorava um menino que tinha passado 40 dias no canadá, e quando ele voltou (5 dias após essa desgraça) eu estava horrível. legal, três meses de namoro e o cara me vê nessa situação. imagina a vergonha? e a vergonha gigantesca de ter que explicar pra todo mundo porque eu era manchada?

superei a vergonha e parei de dar trotes. fui uma ou duas vezes, ainda. na primeira eu passei protetor solar em todos os branquelos, ainda estava traumatizada. isso foi bom, porque os trotes desse ano me renderam bons amigos. na segunda vez eu perdi a paciência nos primeiros 5 minutos de pedágio e sentei na calçada com meus amigos pra rir de um deles que estava muito bêbado.

esse ano eu não vou dar trote, assim como não dei ano passado. cansei. primeiro que não tenho paciência pra socializar com cinquenta pessoas de 17 anos. segundo que esse ritual tribal é demais pra mim. eu sou uma pessoa crescidinha, agora. tenho metas e sonhos que vão muito além de ficar rouca, beber pinga e me sentir superior. eu sou contra qualquer forma de humilhação, e é óbvio que (percebi isso ano passado ao observar de longe os trotes que eram dados) 90% dos bixos não gosta de trote e só está ali pra não ser zoado pelos próximos 4 anos de faculdade.

mas eu confesso que ainda levo o protetos solar na bolsa no primeiro dia. e ainda entro no tópico dos bixos na comunidade do orkut pra ver se algum veterano está com idéias estúpidas que possam machucar alguém. e ainda cuido dessas crianças, minhas crianças, que nunca vão saber meu nome, mas eu os ouço me olhando de longe e falando “aquela é a menina que passou filtro solar na fulaninha no dia do trote”.

esse instinto maternal é uma merda.