Instagram

Follow Me!

  • Home
  • /
  • Tag Archives:  crônica
Magenta_meioGIF

A última coisa que deu errado.

Eu passei duas semanas infernais.

Tem blogueira que não gosta de falar que sente. Eu não consigo me resumir a xampu, sapato e maquiagem. Não que seja errado escolher só falar sobre certas coisas e não querer expor sua vida pessoal ou seus sentimentos. Mas eu passei tantos anos escrevendo só poesia que seria muito fora do natural não falar desse tipo de coisa que todo mundo passa, mas a gente usa a internet pra fingir que vive uma vida sorridente em um filtro de instagram.

Nas últimas duas semanas eu tive problemas relacionados à saúde, física e emocional. Fiquei doente. Tive um lance de família meio bizarro. Precisei cancelar uma discotecagem que eu queria muito fazer. Umas paradas de grana, umas paradas de trabalho. Não, eu não vivo do blog, infelizmente, por mais que eu queira muito – ele nem paga minhas contas. Meu macbook novinho foi pra assistência duas vezes. Eu perdi um monte de arquivos, fotos e vídeos que eu tinha gravado e estava faltando só editar pra postar aqui e no YouTube. Eu quis desistir, dormir, fugir, mudar de nome.

Muita coisinha deu errado. Minhas unhas quebraram, minha pele está horrível, eu estou bem acima do meu peso, meu guarda-chuva quebrou, saí de sapatilha no dia em que precisei andar com água até a canela e de bota quando fez trinta graus, me irritei em casa, minha conta de gás voltou,  eu fui tomar um passe e dei de cara com a porta.

De manhã, meus olhos se arregalavam às cinco e quarenta. Quando eu acordava ainda não estava nem claro do lado de fora, minha cabeça latejava e eu estava consciente do meu corpo inteiro de uma forma que a gente só fica quando está doente. Quem disse que consciência corporal é sempre uma coisa boa? Cada músculo de mim doía. Eu tomei remédio. Eu cansei de remédio. Eu comecei a fazer terapia convencional pela primeira vez na vida. Eu me enrolei no colo do meu namorado como se fosse um tatu bola.

Aí hoje de manhã eu encontrei um conhecido no ônibus, que eu não via faz tempo, mas que me acompanha pelo Facebook. Ele disse:

– Nossa, seu computador quebrou de novo. Que azar, né?

Eu fiquei pensando nisso de azar, de estar cansada, de reclamar da vida. Pensei na minha vida profissional nos últimos tempos. No resumo torto que fiz pra psicóloga do último ano da minha vida. E eu decidi que não vou deixar que seja assim. Que essa merda toda é, sim, uma merda, mas ela vai ter um fim. Eu vou dar a volta por cima nessa caceta toda. Vocês vão ver. Eu suspirei, olhei pro meu amigo, e falei:

– É sim. Mas foi a última coisa que deu errado.
– Ué… porquê?

Eu sorri, meio forçado, meio me forçando, meio com o restinho de boa vontade que eu sei que tá lá dentro de mim:
– Porque eu estou mandando.

 

 

Locker

Amor não é cadeado.

De um ano pra cá eu precisei mudar completamente o modo como eu vejo a vida e os relacionamentos. Porque cada caso é um caso e a gente nunca sabe o que vai acontecer amanhã. A vida pode reservar muitas surpresas e nem sempre as coisas acontecem do jeito que a gente espera, ou prefere, mas eu tenho certeza que tudo acontece porque tem que ser assim.

Pensando na minha situação hoje, eu vejo como tudo o que aconteceu no último ano (e não foi fácil) foi mais do que necessário pra me ensinar a amar de uma forma que eu pudesse aprender o suficiente pra conseguir estar na situação que estou hoje (com uma pessoa que está em outro país).

Ontem ele estava me contando que quando falou de mim pra uma colega de trabalho, ela perguntou se eu não fico brava por ele estar lá. Ele disse que eu sinto saudade. E é isso. Eu jamais me sentiria brava pela pessoa que amo estar seguindo um sonho e tentando se encontrar – eu fico feliz todos os dias com cada conquista dele, pessoal ou profissional, porque amor é assim. Claro que eu sinto saudade. Claro que às vezes dá ciúme. Claro que eu passo a maior parte do tempo querendo viver todas essas coisas novas ao lado dele, e não apenas recebendo as fotos. Mas não era pra ser assim dessa vez. E quem sabe, mais pra frente, a gente viva coisas novas juntos em outros lugares.

Um dos símbolos mais bizarros de um ‘relacionamento feliz’, pra mim, são os cadeados colocados na Pont des Arts, em Paris, que agora começaram a ser “adotados” por alguns casais em São Paulo também.

O cadeado é, pra mim, o símbolo de tudo que um amor não deve ser. Precisei aprender na marra que amar é deixar ir, e o que é pra ser nosso fica. Que o amor vai além da consumação física, vai além da distância, vai além do que queríamos. Prender a pessoa ao seu lado não faz com que ela seja mais sua.

Que sera, sera. Ninguém é dono de ninguém e nem nunca vai ser. Você sempre está correndo o risco de ficar sozinho a qualquer instante, por qualquer motivo.

Amar é deixar livre. Ficar precisa ser uma escolha. Sua, do outro.
E quando isso acontece naturalmente, tem um sabor muito mais doce.

Secret e a tentação do anonimato.

Quando a Rebiscoito postou no Facebook sobre o Secret, logo baixei pra ver qual é que era. Já tinha ouvido falar do Whisper, que tem a mesma premissa, mas não pegou por aqui.

Pra quem ainda não sabe, o Secret é um aplicativo no qual você pode compartilhar segredos de forma anônima. A única identificação da sua timeline é se a pessoa é sua amiga ou amiga de algum amigo seu. Um convite para tornar público as coisas mais absurdas, engraçadas e macabras sobre cada um de nós. Você pode fazer login pelo Facebook para conseguir ver os segredos dos seus amigos (apesar que o meu deu erro… aparecia que eu só tinha 14 amigos no Secret, mas sei de muito mais gente usando) ou adicionar seus contatos telefônicos. O Secret não te diz nem quais dos seus amigos usam o aplicativo.

No começo eu via muito mais segredos em inglês – você também pode ver a aba Explore, com segredos de pessoas ao redor do mundo, mas que você não pode comentar por não fazerem parte da sua rede estendida. Aos poucos, foram surgindo os segredos em português. Nos primeiros dias as pessoas não sabiam muito o que postar e acabavam postando besteira, emojis e coisas nada a ver. Depois, acho que os perdidos desistiram do app e outros aprenderam a real utilidade.

Segredos sobre sexo, amizade, relacionamentos começaram a pipocar aos montes. Em alguns dias, a putaria tomou conta e as pessoas começaram a usar usuários do anonyfish (serviço que permite que você troque mensagens anonimamente, apenas sabendo o username da outra pessoa) para “combinar” sexo. Eu não ouvi falar de ninguém que realmente transou com uma pessoa que conheceu no Secret, mas as promessas estavam divertidas de acompanhar até a hora que o respeito ficou no lixo.

Se a menina é lésbica, logo seus segredos estavam cheios de comentários de machos “alfa” a assediando. Comentários de segredos de meninos gays cheios de homofobia. Uma série de reaças anti-PT e legalização da maconha destilando suas opiniões sem sentido que não foram pedidas em posts variados. E as fofocas. Ah, as fofocas. Muita intriga, revenge porn, e gente se incomodando de todas as formas. Tumblrs criados com segredos curiosos e prints sobre outras pessoas bombando pelo whatsapp – pelo que fiquei sabendo, porque meus amigos são ótimos e nem me mandam essas coisas.

Na sexta-feira passada, deletei o app.

Achei a proposta geral do aplicativo muito boa: quem nunca teve um segredo, mesmo que bobo, que não tem coragem de falar pra ninguém? Todo mundo esconde alguma coisa, porque ninguém pode ser 100% verdadeiro o tempo inteiro. Mas é muito fácil se esconder por trás do anonimato quando suas intenções são simplesmente magoar pessoas. E como eu não estava afim de ficar sabendo da vida dos outros – se quisesse, perguntaria diretamente – preferi sair.

PrintSecret2

Eu, particularmente, acho que quem passa muito tempo monitorando a vida alheia é porque não consegue ver sentido na própria vida. E aí precisa ficar caçando assunto, inventando histórias, ou comentando sobre fatos que não mudam nada a sua vida.

Amigo anônimo, não use essa máscara da invisibilidade para ser tão fútil.
Esse segredo não é seu.

 

(Se você quiser baixar o Secret, clique aqui e vá para o site. Está disponível para iPhone e Android. Apenas se lembre de compartilhar seus próprios segredos, combinado?)

lostmemories

O que você faria se a era digital acabasse?

Ontem estava fazendo uma pesquisa pro trabalho e acabei topando com esse vídeo. É um curta premiado de dois minutos e meio que vale muito a pena assistir e faz com que a gente reflita sobre nossa relação atual com as pessoas e com a vida.

Confesso que sou muito mais conectada do que gostaria. Eu e o meu namorado moramos juntos e fizemos um acordo: tentar ao máximo não ficar no iPhone quando estamos em casa. A não ser que estejamos trabalhando em casa, deixar a internet pra lá. Twitter, Facebook e redes sociais atrapalham demais nosso relacionamento – não por gerar brigas, mas por tirar o foco da nossa vida de casal.

Desde que começamos a fazer isso (no começo era proibido pegar no celular, mas percebi que depois que passou a proibição eu reduzi consideravelmente o tempo que passo online de casa quando ele está) eu comecei a viver muito mais. Faço comida, sigo minha rotina de beleza direitinho e durmo melhor. Leio livros, revistas, jogo videogame. E namoro, dou beijo, pulo em cima dele, faço carinho sem fazer mais nada.

O que eu vou falar soa completamente como fruto de uma alienação constante, e é: gente, a vida offline é maravilhosa.
E é dela que vamos tirar memórias boas.

Há quanto tempo você está prometendo mandar imprimir aquelas fotos que tirou num dia especial com seus amigos? E todas as vezes que se prometeu escrever mais à mão, só pra lembrar como é? E como foi o desespero de ficar sem saber o que está acontecendo quando roubaram seu celular e você demorou pra comprar outro?

Somos viciados em informação. Mas, baby, nenhum cérebro guarda tanta informação assim! Esse bombardeio de notícias fúteis que não fazem a menor diferença pra nossa vida nos priva de coisas mais importantes. O que você faria se a vida digital acabasse, como no curta que postei acima? Todas as fotos do seu Facebook, todos os posts do seu blog, a putaria do seu tumblr.

lostmemories

O que sobraria do mundo real pra fazer você lembrar como é viver?

Provavelmente muito pouco. Suas últimas fotos seriam de quando ainda era criança ou adolescente. Dos seus amigos atuais, nenhuma memória. Eu não tenho fotos impressas com ninguém que eu tenha namorado ou ficado desde que me mudei pra São Paulo há dez anos – ou seja, não tenho nenhuma foto pois os relacionamentos seguintes, troca de computadores e brigas sem sentido fizeram que isso tudo ficasse perdido num limbo. Tem gente que passou pela minha vida e eu nem me lembro como é.

Eu quero voltar a revelar fotos, mandar bilhetes e cartas, cartão de natal no fim do ano (quando foi a última vez que você recebeu um?), escrever dedicatórias em livros feitos de papel e não de dados. Quero comprar uma vitrola, ouvir meus discos de vinil, sair pra passear com meus amigos em vez de conversar pelo Whatsapp.

A vida é isso. Todo o resto é só uma farsa digital. Todo o resto não é nada.

Vamos viver.

30048_450715889061_2652261_n

A expectativa e a realidade de morar em São Paulo.

Em dezembro do ano passado completei dez anos morando em São Paulo. Morei em Atibaia, a 60km da capital, dos 6 aos 17 anos. Cresci lá. Fui adolescente revoltada em uma cidade do interior que na época não tinha gays assumidos, McDonald’s ou pessoas de cabelo colorido. Aprendi a tocar baixo e tive a primeira banda de meninas da região. Beijei uma menina escondido com a certeza de que estava fazendo alguma coisa errada. Pintei o cabelo de rosa e velhinhas escondiam seus netos quando eu passava. Beijei um cara na frente do meu ex-namorado no ensaio de uma peça de teatro. Briguei pela primeira vez. Apanhei. Alugava van pra vir até aqui assistir show no Hangar 110, e quando voltava pra casa, roubávamos energia do poste pra fazer um show na rua. Dei meu primeiro mosh. Fiquei bêbada a primeira vez e achei uma merda. Descobri que não tinha amigos de verdade. Morri de tédio.

Mudei pra São Paulo.
29718_437012579061_8069802_n

No terceiro colegial, vim cheia de esperanças pra cá. Aquela cidade era realmente um aquário muito pequeno pro meu rabo de sereia. Eu pensava que ia dominar o mundo, que ia ser demais, que tudo ia ser diferente. Eu tinha muitas expectativas do que seria a vida aqui e, felizmente, muitas delas se tornaram realidade. Tive experiências incríveis no ano de 2003, também conhecido como o melhor ano da minha vida. O pessoal que conheci na escola, os amigos do fotolog, as experiências bizarras, as verduradas… Meu primeiro amor de verdade – platônico, obsessivo, que acabou resultando num relacionamento que deu errado -. Vieram outras meninas, outros meninos, a descoberta do que era o sexo de verdade. Os primeiros porres homéricos. Os anos sem comer carne. Anarquia era uma utopia. Mudei meus conceitos de vida, política, e amor. O coração partido pela primeira vez. Ficar sem chão. Descobri que alguns amigos vão embora junto com os anos dourados.

30048_450715889061_2652261_n

A verdade é que morar aqui me deu muitas oportunidades que alguns amigos que lá ficaram não tiveram. Hoje trabalham em lojas, lanchonetes e me acham esnobe por querer escrever e ter passado por agências de publicidade. Mas ora, eu sempre quis escrever. Guardo até hoje o cartaz da peça em que atuei, sobre a ditadura militar, estampado por um poema meu. Dizem que o dinheiro e a cidade grande me subiram a cabeça. Que meu rabo de sereia nunca foi grande coisa e agora eu estou num mar grande demais.

A terra da garoa pode te mudar demais, te deixar cansado. Os poros entupidos da poluição, as olheiras fundas das noites sem dormir ouvindo os carros passando na avenida… Mas eu não trocaria nada disso. Eu ainda sou aquela menina que quer mudar o mundo e a visão das pessoas sobre tudo o que é diferente. Agora eu tenho voz, e minha voz vai mais longe. Tomei muito tapa na cara e muita coisa não foi como eu imaginava. Não sou uma escritora famosa, não estou casada com filhinhos de moicano e allstar, não viajei o mundo. Mas fui longe.

Fui longe.

 

gustavinho

Gustavinho e o direito dos ruivos.

Gustavinho era um menino lindo. Tinha os olhos azuis da cor do céu , era inteligente, o melhor da sala. Falava muito bem, tinha talento nos esportes, aprendeu a ler antes que os outros.

Gustavinho era perfeito, só tinha um pequeno probleminha: era ruivo.

gustavinho

Vocês sabem, né? A pessoa não pode ser ruiva por aí, na frente dos outros. Imagina só se os seus filhos vissem um ruivo na rua? “Meu Deus, mamãe, aquele menino é ruivo! Acho que vou virar ruivo também”. E aí, pronto… de repente, o país inteiro viraria ruivo! Onde será que ia parar essa história? Até você, moreno de nascença, ia ter que virar ruivo também. Mesmo não querendo. Porque é assim que acontece… Se todo mundo virou, você também tem que virar, e aí quando se vê não há mais miscigenação no nosso país… Não tem mais moreno, loiro, negro… todo mundo vai ser ruivo e a vaca vai pro brejo.

Mas Gustavinho nasceu ruivo. Sua mãe não é ruiva, nem seu pai. Eles não sabem de onde ele pode ter herdado isso, mas nasceu assim. Seu pai não aceita e vive tentando pintar o cabelo do menino. Já tentou o preto, castanho, e até o azul. Não adianta. Depois que ele toma banho, a tinta sai e no fim das contas, Gustavinho volta a ser quem é: ruivo. Ruivíssimo. Com a cabeça pegando fogo.

O menino falava “Mas papai, eu não escolhi. Nasci assim, não posso mudar. É quem eu sou”. Sua mãe o defendia: “Alberto, deixa o menino ser ruivo, eu só quero vê-lo feliz!”. 

Na escola, já não tinha amigos. Os pais, mal educados, ensinaram às crianças que se você ficar perto de um ruivo, pode virar ruivo também. E aí já era, né? Onde vai parar o país, todo mundo vira ruivo, a vaca vai pro brejo, etc etc etc. Então ninguém brincava com Gustavinho, e alguns meninos malvados colocavam o pé pra ele tropeçar. Ele se isolou.

Até que Gustavinho cresceu. Descobriu que existem outros ruivos no mundo, festas pras ruivos, guetos de ruivos. Encontrou pessoas como ele, e pessoas que não eram como ele mas que não ligavam pra cor de seu cabelo. Um dia, os ruivos foram à rua em protesto: queriam casar! Ter filhos, que poderiam ser ruivos ou não! Queriam adotar crianças morenas, loiras, castanhas e negras!  Imagine só o absurdo.

Mas Gustavinho estava feliz, porque agora um homem formado, já não via diferenças. Ele sonhava com o dia em que ruivos, morenos e loiros poderiam conviver em harmonia num mundo de amor onde não se visse a cor do cabelo, da pele ou do coração. Um mundo em que o amor pudesse ser preto, branco ou multi colorido. Era um idealista, esse Gustavinho. Queria andar na rua e não chamar atenção por ter a cabeça de fogo. Queria ser mais um no meio da multidão. Era um otimista. E não pararia de lutar até conquistar todos os seus direitos.

 

Que história mais absurda, né?

Pois é… É tudo ficção. Afinal, até parece que você não ia querer ter um filho ruivo…

A não ser que ele fosse gay. Porque aí, imagine só? Onde o mundo vai parar? Agora é que a vaca vai pro brejo…

 

(Esse texto contém ironia. Achei melhor avisar, já que tem gente que não entende. Gustavinho sou eu, é você. Gustavinho somos todos nós que queremos viver num mundo onde se possa amar sem ser julgado. Amor não vê sexo. Nem cor de cabelo, pele ou coração.)