Vou contar uma coisa pra vocês e talvez as leitoras mais jovens fiquem um tanto frustradas com a constatação: ter vinte e poucos anos não é fácil. É tão complicado, ou até mais, do que a terrível realidade que acompanhamos nas duas temporadas da série Girls. Com certeza veio daí o sucesso: se a Lena Dunham conseguiu descrever tão bem é porque o inferno dos vinte e poucos anos é um fenômeno universal e talvez não esteja acontecendo só comigo mas também com todo mundo que finge ser feliz na internet.
Eu me formei em Comunicação Visual, mesmo sabendo que sempre quis escrever. A primeira grande escolha que precisei fazer na vida – qual faculdade iria fazer – e já comecei errado. Quando me formei a muito custo entrei na crise existencial que eu pensei ser a pior de todos os tempos: e agora? Não quero ser designer e nem tenho talento para tal. Acho lindo a parte artística – me dê tinta, papel colorido e luzes de natal pra reformar uma cômoda e eu vou achar incrível – mas ter que repensar mil vezes a disposição de blocos de texto numa página definitivamente não era pra mim. Não tenho talento pra ilustração, o que me fazia o patinho feio da classe em que estudei, e logo me senti excluída da maior parte dos assuntos e encontros.
Mas eu escrevia. Eu usava as palavras de forma que aquelas pessoas nunca usariam, nem mesmo durante uma conversa normal. O que eu estava fazendo ali?

Numa época não muito longe dessa eu perceberia que tal questionamento iria abranger muito mais do que minha escolha de ensino superior. Empregos errados, relacionamentos bizarros, e até o modo como eu me vestia: tudo parecia uma forma na qual meu bolinho não se encaixava. Até hoje me olho no espelho e enxergo um grande ‘WTF?’ estampado na minha testa.
Ter vinte e poucos anos é isso? É não saber pra onde devemos ir? Minha mãe com minha idade já criava um filho, casada, e eu estava quase a caminho.
Tenho vinte e sete anos e nem sei se estou na profissão certa. Parece que algum detalhe me passou em branco, como quando eu procurava o Wally nos livros e tinha certeza que já havia olhado a página centímetro por centímetro: ‘Onde esse filho da mãe está?’. Minha vida e meus desejos são um grande livro de Onde Está Wally. O que é que eu estou perdendo? Com certeza tem algum detalhe que vai fazer toda a diferença e provavelmente está gritando na minha frente mas eu não consigo ver.
Tudo parece um sonho, um sonho errado, daqueles que a gente corre corre e não chega a lugar nenhum. Tenta acordar, em vão, e quando consegue pensa que preferia ter continuado dormindo.
Ninguém me avisou que passar pelos vinte anos era tão complicado assim – talvez porque as gerações passadas encarassem essa fase de forma completamente diferente. Não é fácil aqui. Pra vocês está tudo bem? Eu estou sozinha nessa?
Eu tenho vinte e sete anos.
Pra onde é que eu vou agora?
*foto por César Ovalle.
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