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Fiz um perfil no Sarahah por 24h e aprendi algumas coisas sobre as pessoas

Eu caí nessa. Nem acredito. Falei mal, achei zoado, mas queria ter propriedade pra poder falar. Uma amiga disse “faz um perfil, você vai se surpreender”. Fui na onda com o intuito de viver a experiência e escrever esse post.

Se você não sabe do que se trata, o Sarahah é um site que permite que pessoas te mandem mensagens anônimas. A premissa é receber “críticas construtivas”. Você não pode responder e nem publicar para outros lerem por meio do app. É uma mensagem só pra você.

Me lembrei da performance Ritmo Zero, da Marina Abramovic. Em 1974 Marina se propôs a ficar 6 horas de frente para o público, que poderia usar um dos 72 objetos na mesa à frente dela para interagir com a artista.  No fim, ela acabou sendo agredida emocionalmente, sexualmente e fisicamente.

“Eu me senti estuprada. Cortaram minhas roupas, enfiaram espinhos de rosas na minha barriga, uma pessoa apontou a arma  para a minha cabeça e outra tirou a arma de perto. Isso criou uma atmosfera agressiva. Após exatamente 6 horas, como planejei, eu me levantei e comecei a andar em direção ao público. Todos fugiram correndo, escapando de um confronto real (…) Esse trabalho revela algo terrível sobre a humanidade. Mostra quão rápido uma pessoa pode te machucar dentro das circunstâncias favoráveis. Mostra quão fácil é desumanizar uma pessoa que não luta, que não se defende. Mostra que se é provido o palco, a maior parte das pessoas “normais” podem se tornar realmente violentas.” – Marina Abramovic 

No meu Sarahah, recebi muitas mensagens bonitas, de apoio. Pessoas falando que eu sou forte e que devo continuar com os vídeos. Amigos falando que me amam e me admiram. Foi, realmente, muito importante. E sim, eu me surpreendi com a quantidade de mensagens boas.

Mas o que aprendi é que muitas pessoas usam qualquer oportunidade que apareça pra te colocar pra baixo. Fui chamada de “masculina”, feia, gorda. Falaram que não arrumo emprego por ter fama de mentirosa (mais um legado de um relacionamento abusivo + a mania de me abrir demais para as pessoas – coisa que, aliás, não faço mais por ter escolhido me isolar depois de tudo o que passei na vida). Fizeram comentários tão sujos sobre minhas partes íntimas e minha vida sexual que não teria coragem de reproduzir aqui, nem pra mais ninguém.

Essas pessoas não cogitaram em nenhum momento o quanto essas coisas me afetariam – ou cogitaram, e queriam mesmo me ver mal. Porque se você criou o perfil no site, você deve “querer” receber esse tipo de coisa. Quem escolhe o palco não tem sua humanidade considerada. Você “permitiu”. Isso me lembra o que a gente ouve em relacionamentos abusivos. Se você não foi embora é porque gostava. Então toma.

Bullying não tem idade.

Na minha vida, recentemente, escolhi remar contra a maré. Se não tenho algo bom pra falar, não falo. Se posso e quero elogiar, elogio. Não anonimamente, mas pessoalmente, durante um abraço. Eu tento elogiar pessoas todos os dias, principalmente mulheres, e não me ater pra qualidades físicas – tem vezes que é irresistível – mas mostrar o quanto as acho fortes e inspiradoras.

Eu passei por um processo muito intenso de auto-descoberta. Nesse processo, entrei no meu casulo, olhei pra mim, e decidi que de mim só vão sair coisas boas. Que quero colocar no mundo uma energia de amor, instigar a mudança e levar informação. O perfil no site foi uma última entrega, de peito aberto, pra quem quisesse vir com a voadora. E vieram.

Pra finalizar, algumas das mensagens que recebi. Mensagens de força e amor. Tem outras, mas vou guardar no coração. Obrigado por todos que mandaram e participaram dessas 24 horas de sinceridade anônima. Espero que nos encontremos na vida real.

  • Anna Kuhl

    eu fiquei sabendo do app por um tweet seu. e depois um amigo aqui do trampo escreveu um texto ótimo sobre a experiência (https://estilo.uol.com.br/colunas/2017/08/01/venho-do-sarahah-e-trago-verdades-perdemos-a-nocao-de-franqueza.htm). Tive só calafrios de pensar em abrir um perfil, isso que nem sou lá uma pessoa super pública.
    O único momento que pensei – ah, talvez eu abra – era pra mandar uma mensagem pra vc dizendo que vc é meu crush de amizade e sonho com o dia de sentar com vc num bar na augusta e conversar sobre coisas como essa performance da Marina e de coisas da vida em geral <3
    Beijão e obrigada pelo seu trabalho de produção de conteúdo, que é maravilhoso.