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Amar seu corpo não é um crime

No ano passado eu engordei. Não foi pouco. Foram quase vinte quilos. Cheguei a pesar 81, me sentir inchada 100% do tempo. Eu havia largado os remédios de ansiedade e o anticoncepcional. Tinha vergonha de postar fotos de corpo nas redes sociais, tinha medo de ir em eventos e encontrar pessoas que me conheciam quando eu era magra me importando com o que elas iriam pensar. O Facebook me mostrava fotos de uma época em que cheguei a pesar 61 quilos, mas por dentro eu estava definhando de depressão e ansiedade. Eu não comia porque trabalhava demais e chorava demais. Aí comecei a ficar doente.

Quando resolvi largar o trabalho em agência de publicidade – por mil e um motivos – e ir estudar maquiagem – que até hoje não tenho 100% de certeza se é a minha profissão dos sonhos.. aliás, isso existe? – eu comecei a ter tempo livre demais. E tudo o que eu não comia pela perda de apetite que a depressão me trouxe, virou comida em dobro. Quando a gente tem um transtorno alimentar e come compulsivamente, nunca é salada. É sempre pizza. Hamburguer. Cachorro quente. Chocolate.

Eu comia duas barras de chocolate em um dia, se deixassem. E deixavam. Porque não havia ninguém ali pra me impedir. Minha consciência falava “você está triste, tudo bem, você merece”.

Mas esse post não é sobre como eu engordei, nem como está é a minha saúde agora. É sobre como eu entendi que você pode ser saudável com qualquer peso. E pode se amar independente do que a balança te diz.

Quando se completou dois meses que eu não me via nua no espelho, decidi que aquilo terminava ali. Eu sentia falta da Dani que eu era antes, sentia falta de ser sensual, de fazer sexo com meu parceiro, de postar seminudes no snapchat, de usar top e legging e pensar que minha bunda tá bonita demais pra sair com uma roupa que me faz sentir um saco de batata. Eu estava cansada de chorar em provador de loja de departamento tentando entrar num 42.

Eu via meninas gordas e as achava bonitas e incríveis. Porque em mim era inaceitável? Não fazia sentido e eu sentia que era uma grande hipocrisia da minha parte, sendo feminista. Desconstruir esse pensamento é muito fácil em relação aos outros, mas quando se trata da gente, precisamos reviver traumas e ideias que colocaram na nossa cabeça desde que nascemos. A sociedade é cruel com as meninas.

Eu tive que aprender a me amar por exaustão. Não dava mais pra viver um dia daquilo. Então eu parei.

Parei de tentar entrar em roupas que não me servem, e, com isso, parei de comprar roupas em fast fashion. Parei de seguir redes sociais das musas fitness com seus planos absurdos de dieta, com suas três horas por dia na academia, seus detox líquidos tomando só suco de limão por vinte dias. Parei de ler os sites de fofocas, ver as fotos de biquini, de seguir meninas que são magras e falam que estão gordas como se isso fosse um problema. Eu parei de me comparar com pessoas que não são eu, nunca serão eu, e aprendi que isso é mais problema delas do que meu.

Foi como se uma porta se abrisse pra mim e eu conseguisse ver como o problema não era exatamente com meu corpo, independente de estar saudável ou não. Eu poderia pesar 80kgs e estar com todos os exames em dia, assim como mulheres maravilhosas que eu conheço estão. O problema é com todo o resto que acontece quando você não está no padrão, com tudo o que a sociedade te fala que não pode, é proibido ou é feio.

Amar o seu corpo é um processo diário e infinito. Quando a gente tá quase conseguindo vem um anúncio de lingerie, uma mina de 50kg reclamando que tá gorda, uma tentativa frustrada de comprar calça jeans em fast shop, mil comparações o dia inteiro, todos os dias. Os padrões impostos são inalcançáveis: você precisa ser magra, sarada, saudável, zen, sorridente o tempo inteiro. A vida no Instagram é perfeita. Mas por dentro estamos todas exaustas de correr atrás de um objetivo que nunca chega. Faça exercício, coma melhor, aprenda a meditar SIM! Mas faça para ter estrutura emocional e física para encarar a vida no olho todos os dias, pra ler as notícias cada vez mais surreais, pra ter forças pra ir trabalhar e garantir seu sustento, pra aproveitar pequenos momentos felizes com as pessoas que ama, e não pra estar num padrão que lhe foi imposto com uma promessa vazia de felicidade no final. Perfeição é um conceito humano: o universo é como é e pra amar a vida é preciso aprender a entender isso e se encantar com o que há de “errado” também. Eu olho no espelho todo dia e repito: meu corpo é lindo, eu sou incrível, minha cabeça pensa coisas maravilhosas, eu sou capaz, eu posso e vou ser feliz. Sou uma mulher forte. Cheguei até aqui. Fui além do que imaginava. E tantas vezes quis desistir… mas persisto, insisto e sigo. Vem comigo!

Uma publicação compartilhada por Dani Cruz (@daniellecruz) em

O que é ser perfeito? Constantemente vejo meninas postando foto da Marylin Monroe e falando “como era bom essa época em que meu corpo era o padrão”. Eu vejo as fotos da Marylin hoje e me reconheço ali: a barriguinha, as coxas grossas, as dobrinhas nas costas. Quando foi que isso deixou de ser bonito? Ou melhor, quem foi que decretou que isso deixou de ser bonito?

Saúde é importante, claro. Quando eu era muito magra, eu não era saudável, mas era muito elogiada pela minha aparência. Hoje eu engordei, e continuo não sendo saudável, mas sou elogiada pela minha força. Estou começando um processo de reencontrar minha saúde, de ter hábitos saudáveis e alimentação balanceada, mas se a balança não mudar eu já sei que está tudo bem. Porque eu sou, sim, forte. Forte por encarar o padrão bem de perto e falar um grande F*DA-SE todos os dias. Forte por querer gritar e mostrar que vocês também são lindas.

Os padrões impostos são inalcançáveis, como eu falei nessa foto do Instagram que bombou exatamente porque somos muitas que se sentem assim. Você nunca vai estar perfeita. A magra precisa ser sarada, a sarada precisa perder gordura, a gorda precisa perder peso, a loira precisa ser ruiva, a ruiva tem sardas demais. Trabalhando com maquiagem eu lido com meninas jovens, modelos, que se sentem feias – nunca é o suficiente. Elas me pedem pra afinar o nariz, pra disfarçar as pintas, pra esconder os ossos.

Se amar é um ato político. No dia em que cansei fiquei 15 minutos me olhando no espelho. Decorei minhas dobras e curvas, toquei minha pele e minhas estrias e pensei: sou gata! Minhas coxas roliças me levam aonde eu quero ir, minhas costas tem dobras que me mantêm em pé, meu rosto redondo guarda meu cérebro que me trouxe até aqui cheia de ideias e palavras. Gostar disso tudo não é um crime.

O crime é você dizer que eu não posso.