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Um soco no estômago chamado Black Mirror

Eu comecei a assistir Black Mirror ano passado. Não conhecia, até que os episódios apareceram na Netflix com a promessa de uma temporada produzida por eles. Essa série é, junto de Mr. Robot, uma das que mais me fez pensar. Isso nem sempre é bom porque a maior parte das vezes nós assistimos seriados pra fugir da realidade. Lá na Shondaland não tem boleto pra pagar, não tem louça pra lavar, não tem emprego pra buscar.

Mas Black Mirror consegue fazer uma crítica à nossa sociedade atual usando realidades alternativas, muitas vezes futuristas. É soco no estômago atrás de soco no estômago. Aonde a gente vai parar de seguir desse jeito? Usando o sofrimento dos outros como entretenimento diário, isolando da sociedade quem não alcança padrões, números de seguidores, três posts diários?

(A partir desse momento há spoilers do primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror. Se você se importa com isso, vai lá assistir e volta aqui depois!)

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Na estreia da terceira temporada de Black Mirror, a personagem vive em um universo onde cada interação na sua vida, assim como seus posts nas redes sociais, pode te render uma nota. Quem tem notas maiores tem acesso à lugares incríveis, amigos descolados, apartamentos estilosos, presentes, comida, sorrisos. Um mundo de possibilidade se abre pra quem é popular. A personagem principal não é popular o suficiente, mas almeja chegar lá. Até que sua vida começa a tomar um rumo diferente e ela perde a pouca popularidade que tinha, se tornando uma pária social, enlouquecendo para, então, se libertar.

Durante esse caminho, ela encontra uma outra pessoa que passou por isso. Sua nota é um e pouco (de um total de cinco) e ela conta que dava muito valor e tinha muito trabalho para manter o seu nível lá no alto, até que seu marido adoeceu e não teve acesso a um tratamento que poderia salvá-lo por não ser popular o suficiente. Então ela deixou isso pra lá e começou a falar o que pensa e ter uma vida real. E que tudo bem assim.

Eu fiquei pensando, enquanto assistia o episódio, o quanto a gente já vive isso. Fiquei pensando o quanto “influenciadores” são escolhidos não por sua veracidade, mas pelo seu alcance. No quanto nós somos todos números. Quantas vezes eu mesma falei que “fulana tem mais de 50 mil no Instagram” como se isso fosse o suficiente, como se a popularidade de plástico que as redes sociais nos proporcionam adicionasse qualquer valor à qualidade do ser humano de alguém.

Por trás de todos os filtros do VSCO CAM nós estamos aqui com as contas pra pagar, sem saber pra onde ir. São pessoas sorrindo em fotos incríveis e super produzidas tiradas com as melhores câmeras do mercado, mas se entupindo de tarja preta pra conseguir dormir, porque a ansiedade gerada pela necessidade de ser sempre perfeito, popular e incrível é esmagadora e faz a gente achar que está se afogando num mar de likes, comentários e seguidores que na verdade não se importam com o seu bem estar.

A gente deixa de viver a vida real, amigos reais e opiniões reais, pra passar uma imagem. Ouvi muitas vezes que era “feminista demais”: para empregos, para relacionamentos, para amizades. Só que essa sou eu, e talvez eu seja feminista demais, mas pra mim eu sou pouco feminista, pouco engajada, e faço muito pouco perto do que eu poderia e deveria estar fazendo.

Esse episódio foi um soco no estômago e completou um raciocínio que eu tive nesse outro post, sobre o quanto eu não queria mais escrever aqui se fosse para agradar os outros. E quando tomei essa decisão, tive a impressão de que aos poucos consigo ouvir o barulhinho da minha nota caindo.

Na sociedade do lacre, eu sou só mais uma mulher de trinta anos recomeçando a vida do zero. Como a personagem do dito episódio, eu estou presa, mas livre. Eu posso não conseguir nada disso aqui, mas eu quero ser eu mesma. Eu posso levantar os olhos dessa telinha brilhante e ver a poeira cair lentamente, as àrvores se mexendo, as pessoas interagindo.

Ser feliz fora da internet é possível. É só escolher não ser de plástico.

Vai lá assistir essa série logo.