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Rosie

A primeira vez que vi sororidade

Quando eu era adolescente, tive meu primeiro namorado, o Bruno, lá na cidade que eu morava. Era um guri bonitinho de olho verde, que tinha uma banda e tocava guitarra, gostava de Oasis mais do que deveria e como todos os meninos de quinze anos achou que eu caí na história de que ele não pegou ninguém na viagem de formatura pra Porto Seguro.

A gente tinha um namoro de criança, daqueles que termina na sexta de carnaval e volta na quarta de cinzas como se nada tivesse acontecido. Com ele, vivi minhas primeiras experiências, e foi legal enquanto durou aquelas tardes de verão se pegando no portão de casa, assistindo Matrix, ouvindo ele tocar alguma coisa no porão, brincando com a cachorra, com o gatinho que ele me deu (RIP Salém). Mas aí acabou, porque eu tinha 14 anos e uma cidade inteira pra pegar, uma vida inteira pra viver – e ele também.

Um tempo depois ouvi dizer que ele começou a namorar uma “menina de São Paulo” que tinha uma casa em Atibaia, e minhas amigas falaram todo absurdo da menina. Acho que tinham medo de fazer qualquer comentário positivo e eu ficar chateada, mas eu não podia me importar menos com essa situação toda. Ignorei tudo aquilo.

Um dia, meu telefone tocou.

“Oi, Dani! Aqui é a Mell, a namorada do Bruno, tudo bem?”

Eu morava numa cidade em que meninas de escola pública queriam bater em meninas de escola particular por achar que nós “roubávamos os homens” delas. Tudo isso antes dos quinze anos. A rivalidade feminina me incomodava tanto que eu tinha poucas amigas mulheres, quase nenhuma. Eu acabava sendo a menina no meio dos meninos, e cada vez mais fui me afastando das amigas de escola em direção ao rolê do punk rock e fugindo disso tudo. Quando a Mell me ligou, eu achei que ela ia me xingar, falar algo muito horrível. Lembro até hoje dessa ligação.

“Então” ela continuou, vendo que eu não tive muita reação “é que o Bruno falou que você gosta de música, e que faz teatro, eu acho que a gente pode se dar super bem, porque eu também faço teatro, a gente é super parecida, aí te liguei pra gente ser amiga”.

Na hora eu pensei que essa mina só podia ser louca. Mas ao mesmo tempo, que ela era a mina mais corajosa e foda que eu já havia conhecido na vida, e me apaixonei ali mesmo. Pensei “quero essa mulher na minha vida pra sempre!”. Não era um amor amoroso, era um amor de amiga.

Eu e a Mell em 2002, quando mudei pra SP.

A gente ainda não sabia de feminismo. A gente não imaginava que existia sororidade. Eu só fui aprender essa palavra muito tempo depois. Mas ela me ensinou ali, na prática, que a gente não precisa ser inimiga. E eu levei isso pra minha vida, tentando sempre deixar sentimentos idiotas como ciúmes de lado e colocando a nossa condição de mulher e ser humano acima de tudo.

Hoje a Mell casou e teve uma filha linda, enquanto meus namoros começam e terminam mais rápido do que deveriam. Nossas vidas foram em caminhos diferentes, e a gente mora na mesma cidade e nunca se vê, mas eu a amo ainda mais que tudo. Ela me ensinou a maior lição da minha vida, a primeira que formaria a mulher que sou hoje, e acho que ela não sabe disso até agora porque eu nunca tive a oportunidade de falar.

Hoje eu tenho muito mais amigas mulheres do que homens. O feminismo ter ficado “pop” foi a melhor coisa que aconteceu pra minha vida, porque tenho muitas minas com quem posso contar e sei que elas não estão torcendo pelo meu mal, pois estão todos os dias descontruindo a rivalidade que nos ensinam desde pequenas.

A gente pode ser miga SIM! Sempre. A ex do ex. A ex da ex. A atual do ex. A amiga da amiga. A amiga do atual. Todas juntas.

Lendo esse texto da Marcella Rosa eu só pensei nisso. Que sororidade é demais. Que ter migas é maravilhoso. Que ter amigas mulheres, finalmente, é incrível.

Obrigada, Mell.

Obrigada, Migas.