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As meninas não tem voz.

Numa semana cheia de memes, Justin Bieber revoltado, Rei do Camarote e outros assuntos supérfluos que sempre usamos pra deixar a realidade um pouco mais distante, uma notícia séria passou batido por tantas pessoas. Era um vídeo de uma menina de onze anos sendo ‘acariciada’ por um professor, adulto. Não vou reproduzir o vídeo aqui, mas nele a vítima – sim, a vítima – era abraçada por trás pelo homem que beijava sua orelha. Tudo isso foi filmado por outros alunos.

Quando um amigo postou em sua timeline essa notícia, talvez ele esperasse o mesmo que eu: que todos ficassem em choque com a atitude do adulto diante de uma garota de onze anos. Mas ao contrário, o que li nos comentários feitos por outras pessoas é que a menina era uma ‘putinha’, que ‘seus pais não a ensinaram direito’ e que ela ‘obviamente estava gostando’.

Eu queria que todo mundo pudesse ver o que eu vejo ali. E o que eu vejo é uma menina sendo molestada na frente de todo mundo por um adulto como se isso fosse uma atitude normal. Perguntada, a garota disse que pensava ser carinho e não sabia que tinha problema. As pessoas que não tem a menor noção da realidade dirão que ela defendeu o agressor pois estava gostando da situação.

Pra mostrar como estão errados, aqui vos explico o que é ser uma garota.

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Hoje eu sou uma mulher, mas já fui uma menina também. E posso afirmar com todas as palavras: as meninas não tem voz. Elas querem gritar e se calam por medo, por falta de compreensão, por ignorância – no sentido de não-saber e não de falta de inteligência. Ninguém pode esperar que uma garota de onze anos – ou da idade que for – saiba que o que está fazendo é errado. Quantas denúncias de assédio nunca chegaram à alguém por medo? Quantas foram ignoradas por adultos que pensavam ser birra ou uma atitude infantil para chamar atenção? Quantas meninas passam todos os dias pelas mãos de padrastos, pais, irmãos, professores, amigos da família, desconhecidos, tios e primos? Quantas meninas nem ao mesmo SABEM que estão sendo submetidas a violência por, muitas vezes, confiarem naquelas pessoas? Quantas tem suas vidas – e de pessoas queridas – ameaçadas em troca do silêncio?

Quantas sentem vergonha?

Pense nas suas amigas mulheres. Agora imagine que com certeza uma parte delas já sofreu algum tipo de abuso na infância e na adolescência. Algumas se calam. Outras esquecem. Há aquelas que nem ao menos fazem idéia de que sofreram abuso – em alguns casos eram muito novas até mesmo pra lembrar ou entender, ou a mente tratou de bloquear as memórias traumáticas.

Ser uma menina também é ter vontades, sim. Vontade de namorar o amigo. Vontade de beijar, de dar uns amassos. Vontade de ser adulto logo, de crescer, poder transar. Um monte de meninas na idade da garota do vídeo já tem todas essas vontades e isso não significa que elas tenham qualquer tipo de discernimento. Afinal, uma coisa é uma menina ter vontade de experimentar coisas novas – isso vai acontecer com todas elas um dia. A outra coisa é um adulto se aproveitar da fase de experimentação aliada à ingenuidade (porque sim, é possível ter desejo e ingenuidade ao mesmo tempo) dessas garotas.

Como eu disse nessa mesma discussão, mais cedo: Ela PODE querer beijar. ela PODE querer abraçar uma pessoa do sexo oposto (ou do mesmo sexo, tanto faz). Ela PODE sentir desejo. Ela pode fazer o qeu quiser. Mas um adulto NÃO PODE se aproveitar dos desejos confusos de uma pré-adolescente porque ela não sabe nada do que tá acontecendo. Ela não está errada ali. A menina não está errada em nenhum momento. O adulto é que está.

Enquanto as meninas não tiverem voz, esse abuso vai continuar acontecendo. Enquanto formos caladas pelo medo e pelo preconceito de uma sociedade cujo machismo está enraigado de uma forma nojenta, em que a culpa é da mulher por sentir desejo e não do homem que abusa, isso não vai parar. Enquanto for dito que as mulheres precisam usar uma calça pra sair na rua pois usar uma saia curta é correr o risco de ser vítima de estupro, o abuso vai ser algo normal diariamente.

Dentro de mim sempre vou ser uma menina. Mas uma menina e encontrou sua voz.  E toda a minha luta, tudo o que eu falo por mim, é por essa garota do vídeo também. Eu sou ela. Você é ela. Todas somos essa menina muda que não pode gritar. Que não sabe o que falar.

Por uma menina que possa amar, querer, desejar. Usar a roupa que quiser, vestir a roupa que quiser, e crescer em seu devido tempo.

Por nós.

  • mari

    texto lindo

  • Gabi Machado

    Muito bom, Dani. Tantas e tantas são as meninas que não têm voz nesse mundo. Chega dói o coração da gente. Mas acredito que se todas nos juntarmos, talvez, só talvez, o nosso sussurro vire um grito de socorro. De um pouquinho de esperança. Pra elas, pra gente. Pro mundo todo.

  • matheusitalo

    Olha, sempre presenciei atos repugnantes contra garotas e apesar de nunca concordar com isso, acabava achando tudo muito normal e vendo a mim como o diferente (e defeituoso) da história, só depois de amadurecer bastante é que fui perceber que muitas pessoas deveriam ter sido presas pelo que fizeram. Lembro de quando estava na 7º serie e um professor meu começou a namorar uma colega de sala de 12 ou 13 anos de idade, e o pior… todo mundo achou isso lindo, até pq ele ia na sala dar uma de filosofo, dizer que a natureza é mais forte que as regras da sociedade, é brincadeira? O pai da menina a mudou de cidade quando descobriu e o professor até hoje leciona nessa escola, ainda continua paquerando as alunas e todo mundo acha isso lindo.
    Então, eu dou total apoio a causa de vocês e incetivo-as a lutar por um mundo menos hipócrita e mais saudável.

  • chispita

    têm*
    Dica: para ser respeitada como escritora, é importante dominar a língua culta. você comete muitos erros. sempre tem um nos seus textos.

    • hahaha

      ainda bem que tem um povo desocupado q nem vc pra ficar corrigindo depois

      • chispita

        então precisa ser desocupado para ler o texto? eu não preciso consultar um dicionário para detectar erros porque domino a norma culta e achar os erros é automático durante a leitura.

        • Sem tretas, galera.

          Chispita, obrigada pelo toque. Esse texto, como muitos outros, foi escrito às pressas. Se você acompanha o blog, sabe que eu não vivo dele e infelizmente também não vivo da escrita. Me falta tempo pra escrever todos os dias por aqui, e revisar tudo é quase impossível. Assim, alguns errinhos passam. muitas vezes depois consigo reler e conserto!

  • Gabriella

    Isso mesmo! Temos que ser a RESISTÊNCIA!