21 mai 2012

Caio e eu.

Quando conheci Caio eu tinha uns catorze anos. Ele estava no fundo da última prateleira que ninguém vê, aquelas com livros que você não precisa ler pra fazer prova então noventa por cento dos adolescentes nunca chega perto. Foi amor à primeira vista pois ele parecia me compreender, me enxergar sem nunca ter me visto. Me ver sem nunca ter me olhado. E seu jeito de fazer isso era tão natural que me encantava.

Guardei Caio em um canto de mim como se fosse um segredo que só eu soubesse. Tinha ciúmes de dividi-lo com outras pessoas. Para isso eu já tinha Vinicius… Caio era meu anjo caído, minha alma gêmea, meu amor doentio, meu irmão perdido. Por anos e anos foi assim até que o resto do universo descobriu a beleza de suas palavras. E como fizeram com Clarice, o tiraram de contexto. Transformaram em pílulas de auto ajuda, o rivotril do Facebook.

Pra entender Caio é preciso conhecê-lo por completo, saber sua história, ler seus contos mais divertidos – aqueles em que parece que você está sentado com ele em um boteco da Bela Vista, tomando uma cerveja e o observando fumar seu cigarro – até os mais obscuros, quando ele desacredita da vida e do amor. Quando ele se cobre de negro e você chora junto aquelas lágrimas de quem já viveu demais, mesmo sem ter passado por nada daquilo. Porque é uma dor que você entende e se identifica sem nunca ter visto.

Deixe que ele tome conta de sua alma como tomou conta da minha. Que compreenda teus monstros.

Sem preconceitos, sem aplicativos ou frases soltas.

Não sei quando foi que te colocaram pra vergonha, quando fizeram parecer que teus sentimentos mais obscuros são livro pra adolescente. Mas em mim nunca morre a esperança de que o mundo inteiro saiba o grande artista que você foi.

Pra sempre te serei fiel, meu Caio.
Pra sempre.

 

O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu descobriu ter o vírus do HIV em 1994, falecendo dois anos depois, aos quarenta e oito anos. Entre seus diversos contos, meu favorito é “Caixinha de Música”, que pode ser encontrado no livro Morangos Mofados,

  • http://twitter.com/LeoGFreitas LéoFreitas

    Tem gente que lê Caio. Nós sentimos Caio. 

    Simples. 

    • http://maismagenta.com.br Dani Cruz

      pensei em você quando escrevi esse texto, amor. só divido caio com você.

  • http://twitter.com/rebiscoito Rebiscoito ♡

    Que texto lindo Dani… Escolheu bem as palavras. Caio merece!

  • Isadora Cotrim

     Nossa, concordo tanto… seu blog subiu ainda mais no meu conceito depois que li isso. Sofro a cada vez que vejo alguém usando trechos do Caio de forma errado nas redes sociais, fazendo chacota de suas palavras tão bem escritas… Caio é bom demais para ser ‘usado’ assim, em vão, e por gente que nem sequer se dá ao trabalho de ler suas obras. Belíssimo texto, meus parabéns!