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revolução silenciosa.

quando eu era adolescente eu vim lá do interior pra um protesto na avenida paulista. tinha bastante gente, talvez mais de mil pessoas devidamente preparadas com bandanas cobrindo o rosto pra aliviar os efeitos de bombas de gás lacrimogêneo e algumas camadas de moletom pra que o cacetete da polícia montada doesse menos. mas, por incrível que pareça, era um protesto pacífico – ao menos da nossa parte. não começamos brigas, não vandalizamos nada, apenas carregávamos cartazes e gritávamos nossos direitos. apanhar da polícia que tentava dispersar aquele ‘bando de moleques revoltados’, como lembro de ouvir um policial dizer, parecia um preço bem barato a se pagar perto da alegria que era saber que em algum lugar do mundo nosso grito estava sendo ouvido. talvez nossas reivindicações nunca fossem atendidas, e obviamente não foram, mas com certeza alguém ouviu e aquilo bastava. essa cena aconteceu há dez anos atrás.

Essa sou eu, dez anos atrás.

hoje eu estava pensando nesse dia, e nos tantos dias parecidos de anos atrás, enquanto lia o twitter no ônibus e via várias pessoas da minha timeline reclamando do trânsito e da violência em São Paulo. não consegui decidir se o tom era de revolta ou desabafo. talvez o twitter seja o amigo que nós não temos mais simplesmente por não termos tempo, ou por passarmos tanto tempo apegados a gadgets com internet 3G que esquecemos de olhar para as pessoas. hoje, colocar o nome de uma banda nos trending topics é mais importante do que comprar seus cds (se é que alguém ainda faz isso) ou comprar uma passagem para ir até outra cidade – e porque não outro país? um amigo já foi pros EUA só pra acompanhar o NOFX – só para ver o show de perto. hoje reclamar do trânsito e das enchentes em são paulo pelo twitter é a maior esperança que temos – e o maior passo que damos – de que nosso apelo seja ouvido e alguém faça alguma coisa pra aliviar esse caos.

mas nós sabemos no fundo que não seremos ouvidos. e nossa revolução silenciosa é mais a necessidade de compartilhar a dor e o stress de cada dia, do ombro amigo virtual que nunca vai estar lá. a necessidade de ouvir, no eco de nosso ego, nossa própria voz sendo ignorada – e ver as coisas piorarem a cada dia sem nenhum sinal de melhora.

ah, e falando nisso, me segue no twitter. quem sabe a gente não se reconhece por aí, presos no trânsito dentro de um Terminal Bandeira lotado em plena marginal, pra reclamarmos juntos – e ao vivo – das coisas que vão continuar iguais?

  • Mariana

    eu já te sigo, pena que vc não me segue de volta.

    @maripimentel

  • Oliver Ramos

    Sempre que eu vou para São Paulo eu vejo que as pessoas são muito conformadas com essa situação. Ouço sempre: “fiquei 2h no transito para chegar em casa”. Daí eu penso, como eles conseguem? Em mim bate um desespero só de ficar 20 min no trânsito.

    Eu acho que o problema talvez seja esse. O paulistano, como acontece com todas as espécies do mundo animal, se adaptou às mudanças do seu hábitat natural, interiorizando todas as suas características e aceitando de forma natural sua condição. Assim, creio que esses tweets reclamando são simplesmente uma narrativa do seu dia-a-dia, sem intenção revolucionária, sem pretensão de gerar qualquer tipo de consciência coletiva.