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alô, é da casa do mário?

faltam pouco mais de 15  dias para que comecem as aulas na faculdade de novo.

todo começo de semestre é aquele inferno: você vai no primeiro dia de aula pra faculdade e ela está cheia de adolescentes deslumbrados cheios de tinta na cara seguindo um idiota com um apito (e eu posso chamar esse idiota do que eu quiser porque eu já fiz isso também) gritando coisas ridículas e pensando que tem qualquer espécie de poder. não, não vai ter aula pra nenhum semestre, você demorou uma hora pra chegar na puta-que-o-pariu que é seu campus pra nada. os desocupados que não vão trabalhar a tarde vão pro bar “tomar umazinha com os bixos novos” ouvindo babado novo ou um psy aleatório que algum cara fortinho de hotelaria escolheu. medo, muito medo.

em 2005 eu entrei no senac. já havia feito um ano de belas artes e tomado trote, mas “ok, vai ser divertido e é bom pra eu conhecer meus colegas de sala”. além do mais, eu nunca fui a menina popular, então talvez fizesse bem socializar no primeiro dia.
acontece que eu sou branca demais, e meus veteranos não eram bem exatamente meus veteranos. eram veteranos de um outro curso que ODEIAM as pessoas do meu curso.eu, como novata, obviamente não sabia disso.
depois de algumas horas tostando ao sol torrencial que fazia naquela manhã de fevereiro, era mais ou menos umas 14h quando eu sentei na calçada do bar, toda cheia de tinta. uma amiga da minha classe falou “dani, você está muito queimada. os veteranos não te falaram nada?”. não, não tinham falado. eu peguei um ônibus com essa amiga nova (ela mora perto da minha casa) e voltei pra casa, deixando pra lá todo o dinheiro que eu havia arrecadado no pedágio pra cerveja de quem havia sobrevivido.
quando cheguei em casa, minha mãe arregalou os olhos. tomei um banho gelado e desmaiei. mesmo. hospital, soro, noites insones sem poder se mover. e bolhas nos ombros. e MANCHAS pelo corpo. haviam passado tinta nos meus braços e onde havia guache não pegou sol. eu fiquei listrada. também fiquei com a marca da regata. horrível, mas pelo menos ali não ardia.

eu não pude ir na primeira semana na faculdade. fiquei DIAS fazendo compressas de àgua gelada pelo corpo, só de calcinha. colocar qualquer roupa foi um terror por um mês. eu não pude levantar os ombros enquanto as cascas das bolhas dos ombros não caíssem, o que demorou mais ou menos um mês e meio. aquelas manchas nos braços nunca saíram. por um ano foram muito fortes, fiz um tratamento com cremes que amenizou um pouco a situação, mas desaparecer, nunca.

na época eu namorava um menino que tinha passado 40 dias no canadá, e quando ele voltou (5 dias após essa desgraça) eu estava horrível. legal, três meses de namoro e o cara me vê nessa situação. imagina a vergonha? e a vergonha gigantesca de ter que explicar pra todo mundo porque eu era manchada?

superei a vergonha e parei de dar trotes. fui uma ou duas vezes, ainda. na primeira eu passei protetor solar em todos os branquelos, ainda estava traumatizada. isso foi bom, porque os trotes desse ano me renderam bons amigos. na segunda vez eu perdi a paciência nos primeiros 5 minutos de pedágio e sentei na calçada com meus amigos pra rir de um deles que estava muito bêbado.

esse ano eu não vou dar trote, assim como não dei ano passado. cansei. primeiro que não tenho paciência pra socializar com cinquenta pessoas de 17 anos. segundo que esse ritual tribal é demais pra mim. eu sou uma pessoa crescidinha, agora. tenho metas e sonhos que vão muito além de ficar rouca, beber pinga e me sentir superior. eu sou contra qualquer forma de humilhação, e é óbvio que (percebi isso ano passado ao observar de longe os trotes que eram dados) 90% dos bixos não gosta de trote e só está ali pra não ser zoado pelos próximos 4 anos de faculdade.

mas eu confesso que ainda levo o protetos solar na bolsa no primeiro dia. e ainda entro no tópico dos bixos na comunidade do orkut pra ver se algum veterano está com idéias estúpidas que possam machucar alguém. e ainda cuido dessas crianças, minhas crianças, que nunca vão saber meu nome, mas eu os ouço me olhando de longe e falando “aquela é a menina que passou filtro solar na fulaninha no dia do trote”.

esse instinto maternal é uma merda.

  • Rômulo

    Você cresceu :)

  • e qdo passar esta fase outras fases virão… e seu instinto maternal será o mais foufo e mais comemorado em todas estas novas fases!!!
    ahhh… depois de MATAR alguns bixos, as faculdades de medicina de ribeirão preto adotaram o trote humanitário… doar sangue e ficar horas aferindo pressão nas praças da cidade… rs
    menos mal… mas alguns sofrem tb, por agulhas e o sol escaldante o interior!

    bjo danny linda